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Artesão Espedito Seleiro e designer Marcelo Rosenbaum partilham conhecimentos de seus ofícios

Marcelo Rosenbaum e Espedito Seleiro se encontraram em Aquiraz, e comentaram, entre tantos assuntos, sobre quando se conheceram, há quase uma década, durante uma feira de artesanato, em Recife. FOTO: Natinho Rodrigues
Marcelo Rosenbaum já se ajeitava em uma das duas cadeiras posicionadas num deck de madeira. De um lado, a vista alcançava os coqueiros e a areia branca da praia de Porto das Dunas. Do outro, dava pra ver a alegria das crianças correndo em meio ao paisagismo do Beach Park rumo aos gigantes brinquedos. Foi desse último caminho que surgiu o artesão cearense Espedito Seleiro. Com passos lentos e o sorriso largo estampado, o cearense logo teve a companhia de Rosenbaum. O designer paulista se apressou ao encontro, deixando transparecer a admiração e a ansiedade.

Juntei-me a Rosenbaum - no achegar e no reverenciar -, enquanto a equipe escolhia a melhor posição para captar som e imagem. Em uma conversa rápida, mas recheada de causos e memórias, aproveitei para repassar a proposta da entrevista: presenciar uma conversa entre os dois sobre diversos temas, sem perguntas, apenas algumas conduções - caso necessário.

"Que honra estar aqui. Sempre um grande prazer encontrar o senhor", iniciou Rosenbaum ainda com o olhar de admiração. "Prazer. Quando ouvia falar no teu nome, pensava assim: 'Um dia eu vou conhecer ele'", brincou o artesão retribuindo a delicadeza.

Entre simpatias de via dupla, o paulista e o cearense relembraram a primeira vez que se viram, durante um evento em Recife. A data é dúvida: se há oito anos ou uma década. "Fiquei nervoso de conhecer o senhor. Pra mim, o senhor é um símbolo muito grande da nossa cultura. É um mestre", confessou o designer.

"Eu tenho esse título de mestre, mas um mestre não é essas coisas todas não. É uma prova que a gente já fez alguma coisa dentro da nossa cultura. Eu não posso fugir disso aí", disse Seu Espedito, sobre ter sido nomeado Mestre da Cultura em 2008 (Tesouros Vivos) pelo Governo do Estado do Ceará.

Trajetória
O mestre, que completou 79 anos no mês passado, relembrou o início da trajetória. "Eu comecei com oito anos. E acho que para a cultura ser original tem que começar a fazer novinho, quando você não tá interessado em enricar. É uma coisa que vem do coração".

"E tem que ser assim mesmo. A criança com oito anos está pura. Vai pegando a essência, entendendo, incorporando o saber. Tá aprendendo história, geografia, sobre bioma", complementou Rosenbaum. "Os filhos do senhor trabalham com o senhor, né?".

"Trabalham. Do jeito que eu comecei mais o meu pai, trabalhando novinho, eu botei meus filhos pra estudar e trabalhar. Chega do colégio, 'tem alguma coisinha que a professora mandou fazer? Faça e depois vá pra oficina'", detalha a rotina no Sertão para refletir em seguida. "Não é explorar. Mas você pega a criança, dá um lápis e diz: 'olha, você vai desenhando um cachorro, um porco, um rato'. E vai movimentando a imaginação dela".

Valor da arte
"O pessoal que quer mandar no Brasil deveria valorizar mais um pouquinho a cultura. Eu já passei um sufoco tão grande pra manter esse trabalho meu. Na época que apareceu o plástico, sintético, borracha, essas coisinhas grã-finazinhas. O que tinha de sapateiro, seleiro, que não queriam mais trabalhar com couro... Você tem que curtir, tratar, pintar, desenhar, fazer dele uma peça", expôs o produtor de arte de Nova Olinda, no Cariri cearense.

Os desdobramentos sobre o impacto do avanço tecnológico se prolongaram por alguns minutos em opiniões convergentes de ambos os lados. A prosa encontrou cama na economia criativa, suscitada por Rosenbaum. A teoria defende valorização equivalente para a concepção tanto quanto para o produto final.

"E essa coisa do tal do desenvolvimento, que é disfarçado pra exatamente trazer a coisa mais fácil. Mas ela vem com petróleo, importada, desqualifica a mão de obra local", embrenha Rosenbaum no tema. "E é aqui que entra o mestre. Exatamente no lugar dessa consciência de tá lá resistindo, sobrevivendo, mesmo sem dinheiro, muitas vezes", complementa.

"O senhor manteve, está resistindo e é reconhecido. Mas quantas pessoas nesse Brasil profundo têm esse saber e estão esquecidas", questiona o paulista como forma de crítica ao modelo mercadológico.

Mergulho na cultura
Nesse momento, cito o projeto "A gente transforma", criado coletivamente e integrado por Marcelo Rosenbaum. A iniciativa promove um resgate da memória dos povos nativos brasileiros por meio de expressões artísticas feitas ou inspiradas por eles.

Um dos trabalhos foi a coleção que se concretizou no sertão do Piauí, em Várzea Queimada. O povoado transforma pneus em joias e palha de carnaúba em acessórios.

"Metade é índio e metade é negro. Mas eles não se consideram nem índio nem negro, eles são eleitores. A única oportunidade que têm na vida deles é quando vem a eleição", avalia Rosenbaum.

Com a fala entusiasmada e acompanhada de sorrisos emocionados, ele suscita uma visita carregada de simbolismo ao espaço de trabalho de Seu Espedito Seleiro. "O pessoal de Várzea foi visitar o ateliê do senhor. O seu João da Cruz, que é um vaqueiro, fundador da comunidade, quase chorou de emoção quando viu o gibão do senhor e botou aquele chapéu branco". Enquanto isso, seu interlocutor acompanhava com feições de prazer, como se reconstruísse a cena na cabeça. "Agora que tô entendendo: pro vaqueiro a roupa é o momento máximo", arrematou Marcelo.

Um suspirar profundo de contentamento do artesão encerrou a conversa com uma frase que poderia ser o verso de um ode ao sertanejo. "(Vestir o gibão) É mesmo que dizer: 'você vai morrer e vai pro céu'".

Saiba mais:
O encontro entre Marcelo e Espedito aconteceu durante o Encontro na Vila, projeto do Beach Park.  Em um  evento  aberto ao público, o bate-papo contou ainda com a presença de Bianca Misino, representando local  Catarina Mina. O trio conversou sobre sustentabilidade na moda, no artesanato e na arquitetura. (Diário do Nordeste)

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