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Em Barbalha, Mestre da Cultura mantém viva tradição dos ladrilhos hidráulicos

FOTO: ANTONIO RODRIGUES
Cimento branco, pó de pedra, areia grossa, areia fina, cimento comum e o pigmento. Como uma "receita de bolo", é assim que Jaime Arnaldo Rodrigues, 76, mais conhecido como Seu Jaime, classifica a fabricação de ladrilhos hidráulicos que enfeitam casas, fazendas, praças e igrejas. O artesão ou construtor, natural de Barbalha, passou mais de 40 anos produzindo o mosaico e sua oficina permanece de pé, na ativa. Ano passado, por causa do seu trabalho, foi reconhecido como Tesouro Vivo da Cultura Cearense.

Com origem no fim do século XIX na Europa, o ladrilho hidráulico é um tipo de revestimento artesanal feito à base de cimento, cuja utilização era comum em pisos e paredes de praças e casas. Diferentemente da telha e do tijolo que são levados ao forno, a peça, depois de preparada, descansa por 24 horas e é submergida na água por mais oito horas, até ficar armazenada por mais alguns dias na sombra. Um trabalho manual, cansativo.

Este ofício, Jaime carrega desde os 17 anos quando saiu do sítio Venhaver, na zona rural de Barbalha, e começou a trabalhar na pequena fábrica de mosaicos fundada em 1956. Inicialmente, foi registrado como "prensista". "Eu era servente por seis meses, depois fui aprender", lembra. Na época, os ladrilhos viviam seu auge. A procura era grande. "Era um rojão danado. Muito serviço. Mas o cara novo tem que ter muita disposição. Aguentei lá, porque eu morava no sítio e era pior".

A crescente procura por ladrilhos hidráulicos acontecia, pois estes seguiam uma nova tendência: a utilização de cores. As formas, que criam imagens nos chãos e paredes, foram fabricadas por um metalúrgico francês e trazidas de São Paulo. O sucesso fez o empresário João Gonçalves abrir uma nova filial em Brejo Santo, em 1963, que atenderia aos municípios vizinhos e também aos clientes da Paraíba e de Pernambuco. "Fui pra lá com mais oito rapazes e cinco prensas", recorda Jaime. O empreendimento durou pouco tempo, pois, parte do prédio acabou desabando no ano seguinte.

A chegada da cerâmica prejudicou as vendas de mosaico, principalmente, por ser comprado por um preço menor. "Foi ela que derrubou o negócio. Chegou barata, bonita. Caíram em cima", lembra. A fábrica de ladrilhos de João fechou em 1979. Foi aí que Jaime largou o cimento e foi trabalhar como vendedor crediarista de roupas. "Saía vendendo roupa aqui nos sítios. Me danava com a mercadoria nas costas e saía a pé", lembra.

Em 1982, as pessoas voltaram a procurar Jaime para recuperar os pisos de ladrilhos feitos há mais de 40 anos. Todas as antigas fábricas haviam fechado. "Uma mulher, de Sousa (PB), chegou aqui e pediu pra eu fazer. Não queria. Aí começou a chorar", conta. A comoção trouxe o construtor de volta ao mosaico. "Daí pra frente, apareceu foi gente. Quando souberam que eu estava fazendo, veio gente até de Belém do Pará", completa.

Seu Jaime comprou terreno, as prensas e os moldes de seu antigo patrão e montou sua própria fábrica. Suas peças estão presentes em Brasília (DF) e em estados como Paraíba, Pará, Alagoas, Piauí e Rio Grande do Norte. Pai de 11 filhos, foi assim que conseguiu manter toda a família. Contudo, apenas o quinto deles, Cícero José Rodrigues, 48, conhecido com Vando, herdou o gosto pela produção do piso artesanal.

Herança
Apesar de fazer outros serviços como pintor e servente de pedreiro, foi pelo ladrilho que Vando criou gosto e começou a trabalhar, efetivamente, em 1994, na oficina do pai, construída no quintal de sua casa. "Pra mim, não é difícil. Hoje, eu faço todas as peças. Nem todos fazem tudo. A tinta, o mosaico, o material. Não posso deixar acabar. Sempre tem uma pessoa pra levar o negócio", explica.

O filho herdou de Jaime a "receita" secreta para a produção das tintas e da "pedra" como chama o próprio artesão. Os "ingredientes" ele revela, mas a forma de fazer mantém em sigilo. Vando continua recebendo encomendas enquanto seu pai, aposentado, se mantém longe do cimento para preservar sua saúde.

Dependendo do modelo da peça, podem ser feitas até 150 por dia. As mais complexas, apenas quatro, porque possuem muitos detalhes. Recentemente, a Fábrica de Ladrilhos de Barbalha recebeu pedidos de uma igreja em Sousa (PB), de uma casa na Lagoa Seca, em Juazeiro do Norte, e do próprio projeto do Teleférico do Caldas, com mais de 320 metros quadrados.

Reconhecimento
A casa de Jaime foi escolhida pela Fundação Casa Grande e pelo Sesc-CE para receber uns dos 16 museus orgânicos que serão instalados pelo Cariri. Dois deles já foram inaugurados em Potengi: o Museu Orgânico do Mestre Antônio Luiz, líder do reisado dos Caretas de Couro; e o Museu Orgânico do Mestre Françuli, que fabrica aviões com folhas de flandre e zinco. Até este mês de maio, o terceiro, em Juazeiro do Norte, que homenageia o Mestre Nena, líder do grupo Bacamarteiros da Paz, será entregue. No entanto, ainda não há prazo para a inauguração do Museu dos Ladrilhos.

A ideia é tornar a fábrica de mosaicos um espaço de visitação, valorizando seu cotidiano. "Já é uma coisa natural vir ao Cariri para conhecer a cultura popular", afirma Alemberg Quindins, presidente da Fundação Casa Grande. Nestes espaços, os visitantes têm contato com o mestre da cultura, sua família e sua memória.              (Diário do Nordeste)

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