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Consórcio Nordeste, a resposta dos governadores a Bolsonaro


Recém-chegado ao Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro, então no PSL, declarou em entrevista no dia 3 de janeiro: “Eu não sou o presidente deles”. Eleito com 57 milhões de votos, o novo chefe do Executivo se referia aos governadores do Nordeste, que não haviam comparecido à sua posse. Na região, o ex-capitão do Exército não logrou vitória. 

Dois meses depois, Ceará, Bahia, Pernambuco e os outros seis estados nordestinos assinavam a ata de criação de um bloco: o Consórcio do Nordeste. O local escolhido para a cerimônia foi o Palácio dos Leões, sede administrativa do governo do Maranhão, a cargo de Flávio Dino (PCdoB) – a quem Bolsonaro chamaria de “paraíba”, num dos episódios de maior desgaste entre o presidente e os governadores. 

Na teoria, o consórcio tinha propósito unicamente administrativo, de modo a facilitar compras, criar uma alíquota comum e viabilizar o diálogo com o poder central, que teria de negociar com os representantes dos estados em conjunto, e não individualmente. Na prática, porém, era também um contraponto a Bolsonaro. 

“O consórcio serviu para cristalizar uma resistência do governo federal com a região. Todos os gestores estavam no bloco de oposição ao Bolsonaro”, avalia o cientista político Emanuel Freitas, da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Segundo ele, “é raro ter governadores de oposição ao presidente” agrupados assim, partilhando laços políticos e econômicos. O normal, prossegue, “é que estejam com o pires na mão”, à espera de que recursos federais sejam repassados, sobretudo em tempos de crise financeira. 

Exatamente por isso, acrescenta Freitas, o “grupo dos nove” se consolidou como “um flanco de resistência”, mas também de busca de alternativas de investimento, como aconteceu agora, com a viagem dos gestores a países da Europa (leia entrevista com o governador da Bahia, Rui Costa, na página seguinte) na última semana – a maratona se encerrou na sexta-feira, 22. 

Efeito Bolsonaro 
Para o professor de Ciência Política da Faculdade Presbiteriana Mackenzie, Rodrigo Prando, a beligerância inicial de Bolsonaro com o Nordeste foi a liga fundamental para a aliança dos governadores. 

“Há uma rejeição muito grande ao Bolsonaro na região Nordeste”, analisa, “e isso acabou aumentando depois do período eleitoral pela forma como o próprio presidente se expressou em relação aos nordestinos e, de certa maneira, aos governadores”. 

O docente explica que o consórcio, se tinha foco mais pragmático no começo, acabou por resultar numa parceria de contornos inéditos no Brasil, visto que a união de governadores ia além de querelas ideológicas, ampliando a capacidade de atuação de cada ente federativo e potencializando seus gastos com saúde, segurança e educação. 

“Desde Fernando Henrique, muitos governadores costumam fazer viagens internacionais e vão individualmente a outros países na busca de parcerias e investimentos”, explica Prando. “Agora, um consórcio assim me parece algo inédito no Brasil.” 

De acordo com o especialista, o ineditismo reside tanto no alcance, envolvendo todos os gestores, quanto na carteira do grupo, que anunciou neste mês sua primeira compra coletiva: uma licitação na área de saúde que gerou economia de R$ 50 milhões para a região. 

Membro do Conselho de Leitores do O POVO, professor e cientista político da Universidade Federal do Ceará (UFC), Cleyton Monte afirma que o consórcio “tenta tapar o buraco deixado pelo governo federal”, cujos investimentos na região teriam minguado desde que Bolsonaro assumiu a Presidência. 

“O Nordeste era a área que mais crescia no País. É também onde temos estados com condições fiscais melhores”, analisa Monte. “Ceará, Bahia, Pernambuco, Maranhão, todos têm uma condição fiscal muito boa. Se fossem nove estados endividados, não haveria consórcio.” 

Além disso, defende o professor, “houve uma visão de que, numa situação de crise política e isolamento, a criação do bloco seria uma resposta eficaz” ao Planalto, que poderia estancar recursos, prejudicando os estados. 

“Alinhamento ideológico já houve no Nordeste, por exemplo, na época do FHC, quando quase todos os governadores eram do PSDB ou do PFL, e na época do Lula também”, ressalta. “Mas não tenho notícia de uma junção como esta que temos, para fazer um contraponto”.                   (O Povo)

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