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Caririense pesquisador de fungo que atinge feijão é contemplado com nível mais elevado de Bolsa Produtividade do CNPq

FOTO: Gabriela Meneses
O feijão-caupi, conhecido como feijão-de-corda, além de ser muito consumido em pratos nordestinos, é bastante cultivado no semiárido brasileiro. De acordo com dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) de 2017, no Nordeste são cultivados cerca de 1,2 milhão de hectares com feijão-caupi, com produção de aproximadamente 434 mil toneladas de grãos. O Ceará se destaca como um dos maiores produtores da região, com 63 mil hectares e produção de 30 mil toneladas, conforme dados do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará. 

Apesar da boa adaptação do feijão-de-corda às condições climáticas do semiárido, pesquisadores consideram que a produção ainda tem sido limitada por conta da ocorrência de doenças, principalmente da podridão cinzenta do caule, causada pelo fungo do gênero Macrophomina. Essa doença pode causar perdas de até 100% da produção de feijão-de-corda na região semiárida brasileira. Diante desse problema, a Universidade Federal do Cariri (UFCA), no Centro de Ciências Agrárias e da Biodiversidade (CCAB), tem desenvolvido pesquisa que busca estudar esse tipo de fungo e impedir que as plantações sejam dizimadas. A investigação é feita pela equipe do professor Sami Jorge Michereff, que recentemente foi contemplado com Bolsa Produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), na modalidade PQ, categoria/nível 1A, a mais elevada. 

Com a pesquisa “Macrophomina em cultivos de feijão-caupi no Nordeste brasileiro: desenvolvimento de iniciadores específicos, diversidade de espécies, adaptabilidade comparativa e manejo pela adubação verde”, o pesquisador pretende, após a identificação das espécies do fungo Macrophomina que atingem as plantações de feijão, desenvolver formas alternativas e mais baratas de identificar essas espécies; estudar a adaptabilidade das espécies às medidas de controle; e descobrir as formas de controlar o fungo com adubação verde, incorporando diferentes tipos de plantas que liberam substâncias tóxicas no solo e que fazem mal pra esse fungo que habita a terra. 

“O projeto vai desde a fase de detecção até a parte final tentando controlar o fungo. (…) Como não tem controle químico para esse fungo, o agricultor não tem opção nenhuma. Quando a doença aparece, o agricultor é obrigado a abandonar a área”, explicou Sami. Esse fungo, de acordo com o pesquisador, atinge mais de 500 espécies botânicas, como algodão, girassol e soja. 

Para desenvolver a pesquisa, o professor terá um prazo de cinco anos, a contar de março deste ano. A bolsa nível 1A é dividida em duas cotas de valores mensais: R$ 1.500,00 para uso pessoal do pesquisador e R$ 1.300,00 de adicional de bancada: uma verba para ser investida na pesquisa com aquisição de materiais e equipamentos. 

Bolsa Produtividade 
O CNPq regularmente publica chamada pública, convocando os pesquisadores com título de doutor ou de livre docência (forma de ingresso na universidade em que o professor defende uma tese de livre docência, ainda utilizada em algumas universidades estaduais) a submeterem suas propostas. Atualmente, existem cinco categorias/nível: 2, 1D, 1C, 1B, 1A (do nível mais baixo ao nível mais alto). Sami ingressou como pesquisador na modalidade PQ em 2003, quando ainda era professor na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Depois de 17 anos, chegou ao patamar mais alto. Cada nível tem uma regularidade específica de anos para renovação ou exclusão. No caso da categoria/nível 1A, é de cinco anos, começando a valer a partir de março deste ano. 

De acordo com o pesquisador, na área dele – Fitopatologia (estudo de doenças de plantas) -, outros quatro professores estão no patamar 1A no Brasil: um da Universidade de São Paulo (USP), dois na Universidade Federal de Viçosa (UFV) e outro na Universidade de Brasília (UnB). 

“É muito difícil ascender de um nível ao outro, leva muito tempo e você tem a concorrência dos grandes centros. Considerando as outras universidades, aqui ainda é uma universidade jovem”, disse Sami, ressaltando que a UFCA só tem seis anos de existência, enquanto as demais já possuem dezenas de anos. "É muito difícil ascender de um nível ao outro, leva muito tempo e você tem a concorrência dos grandes centros. Considerando as outras universidades, aqui ainda é uma universidade jovem" Professor Sami Jorge Michereff 

Na UFCA, atualmente, outros três professores são bolsistas do CNPq. Os professores João Hermínio da Silva e José Euclides Gomes da Silva possuem Bolsa Produtividade, nível 2. Já o professor Paulo Renato Alves Firmino é bolsista produtividade em Desenvolvimento Tecnológico e Extensão Inovadora, nível 2. 

Produção científica 
O reconhecimento do professor Sami, além da pesquisa que será desenvolvida nos próximos cinco anos, ocorreu por conta da elevada produção científica nos últimos cinco anos. Ele, que também é professor do Programa de Pós-Graduação em Fitopatologia (UFRPE), atua em diversas frentes de pesquisa, com uma equipe de graduandos, mestrandos, doutorandos, pós-doutorandos, pós-doutores e outros professores. Atualmente, 19 pesquisadores locais e de outros centros estão envolvidos em projetos de Pesquisa ou Extensão, desenvolvidos sob orientação, coorientação ou colaboração científica do professor Sami.

Na UFCA, ele conta com a cooperação da professora Kamila Câmara Correia, que também é da área de Fitopatologia e bolsista de Produtividade em Pesquisa da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), além da parceria de estudantes de graduação. “O número de pessoas é bem grande. Tem vários trabalhos, em vários locais. Até porque os nossos laboratórios são pequenos e não têm estrutura pra suportar tanta gente. Além disso, tem trabalhos que são em campo, a gente faz bastante coisa aqui na região do Cariri. É um conjunto de trabalhos”, explicou. Além de pesquisas com o feijão-de-corda, existem outros estudos com plantações de algodão, banana, seriguela, hortaliças e videiras. 

“Hoje, em pesquisas de alto nível, ninguém trabalha sozinho”, frisou o professor. Além das parcerias com pesquisadores locais e do restante do Brasil, o pesquisador tem parceria científica com nove países. “Quando falo parceiro, não é de dinheiro. Tenho parceria com a China. Eu trabalho com resistência a fungicidas. Uma parte mais simples eu faço aqui e uma parte mais sofisticada eles fazem lá. Eu tenho cooperação com os Estados Unidos, com a França, com a Espanha. É preciso também ter bons parceiros internacionais para fazer pesquisas de alto nível. Isso foi construído no decorrer da caminhada”, explicou. 

Ele afirma ainda que, apesar do caráter regional da maior parte dos estudos, é importante que se tenha uma relação com o que está ocorrendo no país e no mundo. De acordo com o professor, por exemplo, o fungo que atinge o feijão tem atingido também plantações de soja e algodão no mundo todo. “Não existe nenhum fungicida registrado no mundo para controle dessa doença”, exemplificou. 

Desafios 
A falta de verba e as ameaças de cortes no cenário brasileiro atual são considerados desafios para a pesquisa, na opinião do professor. “Todos os países que evoluíram foi porque investiram em ciência e tecnologia. Aqui não. A visão é totalmente distorcida. Mas não é por isso que a gente vai deixar de trabalhar e fazer o que acredita”, disse. Apesar de ser não ser otimista com o cenário atual, ele considera que é possível driblar alguns problemas e continuar pesquisando. “Vivi bons momentos de muito dinheiro, de 2006 a 2010, 2011. Depois entramos num processo violento de corte de recursos. Naquele momento a gente fez coisas mais sofisticadas. Depois disso, não deixamos de produzir, mas com o cuidado de não fazer coisa além da capacidade financeira. O dinheiro é importante, mas mais importante que o dinheiro é você ter uma boa cultura científica”, argumentou. 

Para conseguir estrutura de pesquisa, além da bolsa produtividade e das parcerias no Brasil e em outros países, ele conta com auxílio da UFCA. Em edital da Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação (PRPI), ele conseguiu cerca de R$ 6 mil para financiar a compra de materiais de consumo para os estudos de sequenciamento de DNA do fungo que atinge o feijão. Além disso, tem buscado cooperação com o setor privado, por meio da Diretoria de Articulação e Relações Institucionais (Diari), para desenvolver avaliação de produtos biológicos usados no controle de doenças de plantas e consultoria técnica para implantação do setor de pesquisa de uma empresa de uva no Vale do São Francisco. “É bom que possamos empregar esses recursos na melhoria dos laboratórios, na compra de equipamentos”, disse. 

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