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Artistas cearenses transformam latas em obras para ajudar comunidade durante pandemia


Talento e solidariedade unidos. Assim, artistas cearenses driblam os impactos do novo coronavírus e dão esperança a moradores do Poço da Draga, em Fortaleza – comunidade localizada na Praia de Iracema que enfrenta grande vulnerabilidade social. A partir do projeto Spray do Bem, que estimula a pintura de latas de spray (geralmente descartadas após o uso em intervenções urbanas), 20 profissionais, em igual número de homens e mulheres, transformam os objetos em obras artísticas e passam a vendê-las na internet. Metade do montante arrecadado será direcionado para os moradores da localidade. 

“No total, 50% do valor vai para os residentes no Poço da Draga, 40% será destinado ao artista e 10% para a logística de entrega e outros processos”, detalha Terezadequinta. A artista visual é curadora do projeto em Fortaleza, juntamente ao também artista Robézio Marqs. Ambos são fundadores do Coletivo Acidum Project e idealizadores e diretores do Além da Rua – Festival Internacional de Artes e Conexões. Eles assumiram as rédeas do Spray do Bem na Capital após convite das entidades paulistanas idealizadoras da ação, a Casa Jacarepaguá e a Galeria Crua. 

Segundo Tereza, os artistas cearenses foram convocados a participar da iniciativa por meio das redes sociais. “Priorizamos aqueles que já trabalham com essa pegada da street art, do grafitti. Eles já teriam em casa o material que iriam utilizar, como spray e tinta látex. Estamos todos, então, atuando home office”, conta. 

Desde 24 de abril, as latinhas, já finalizadas, começaram a povoar o feed do perfil do Além da Rua no Instagram, e poderão ser adquiridas também por lá, no valor de R$ 550, com possibilidade de parcelamento em até três vezes. Toda a ação em Fortaleza é feita em parceria com a ONG Velaumar e o Instituto Iracema. Não à toa, a ideia é que, em breve, mais 20 artistas possam integrar o time. 

Latas brilhando no escuro
São muitas as faces que as latinhas de spray assumem mediante o trabalho dos profissionais: desde representações de abstrações (naquelas feitas por Laura Holanda), passando por identidade negra (Dinha) e traços de nossa terra (Almeida Luz), a diversidade é imensa. Uma das artistas participantes da ação, Bruna Beserra iniciou a pintura das latas no dia 18 de abril. Ela conta estar dedicando tempo integral ao serviço, pois depende do tempo de secagem da tinta. “Já borrei, já limpei... É a primeira vez que estou pintando uma latinha, então tem muito teste, erros e acertos, e trocamos ideias com outros artistas que estão fazendo a mesma atividade”, explica. 

A temática na qual trabalha envolve figuras de gatos, por ter quatro animais em casa e gostar de pintá-los. Há ainda uma novidade: “As cores são bem variadas e uso uma tinta fotoluminescente, porque adoro coisas que brilham no escuro”, adianta, descrevendo um pouco como ficará o efeito da peça sob sua assinatura. “Acredito que conseguirei pintar duas latas”. 

Bruna julga ser essencial o poder da arte neste momento delicado de crise na saúde em todo o mundo e, por isso, comemorou o convite para participar da ação. “É importantíssimo, tanto para quem produz quanto para quem olha ou adquire. Fiquei e fico muito preocupada com as artes visuais nessa pandemia. Estava com um trabalho para ser feito antes do isolamento e, agora, não sei se ele vai acontecer ou não quando tudo passar”. 

Engajamento e reflexão
Thyagão, chargista do jornal Diário do Nordeste e outro participante do Spray do Bem, detalha que o processo criativo adotado por ele para concepção das pinturas começa numa folha de caderno, rascunhando, até chegar a um resultado. “Sempre no meu estilo, do cartum. Como faço as charges para o jornal, a mesma identidade de desenho que adoto lá estou aplicando nas latas”, diz. 

Por estar confinado, o artista produz calmamente, deixando a inspiração ir ganhando os tons aos poucos. O esforço, feito o de Bruna, também se traduzirá em duas latas. De antemão, ele já sente o aconchego no peito por unir arte e solidariedade e colaborar com as famílias de um espaço tão estimado. “Muita gente passa pelo Poço da Draga, devido à Praia de Iracema, mas ninguém dá muita importância. Eu sempre tive uma relação de olhar, de percebê-los. Ainda não tive oportunidade de pintar lá, mas já está jurado um espaço na comunidade para eu fazer o meu trabalho também”. 

E completa: “Digo que sou um privilegiado de poder estar em casa, com meus filhos, sem faltar nada. Mas essa pandemia levou muita gente à estaca zero, de fome, de desespero, desemprego. Então, espero que as pessoas comprem as latas para ajudar um lugar que necessita tanto”. 

Da parte de Terezadequinta, a vibração é semelhante: é bom passar a integrar um forte movimento iniciado por vários setores da cultura e das artes para dar vazão aos mais vulneráveis neste conturbado período. “Quando a gente recebeu o convite da Galeria Crua e da Casa Jacarepaguá, ficamos muitos felizes, porque já estávamos admirando o trabalho. Estamos com uma boa expectativa de vendas, e eu espero poder ajudar também os artistas, que também vivem um momento muito delicado, tendo em vista que a maioria é autônoma”. 

Ela igualmente adianta o desejo para que o projeto continue quando tudo passar, abraçando possivelmente uma nova configuração. “Estamos conversando com as casas idealizadoras, em São Paulo, e também com o Instituto Iracema para pensar talvez uma exposição, antes de entregar as latas para os clientes, quando a pandemia acabar. Mas ainda está no campo das ideias”.                (G1 CE)

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