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Universitários de zonas rurais adaptam rotina ao ensino a distância

Maria Elaine enfrenta dificuldades de concluir estudos acadêmicos
A confiança na educação como forma de ampliar as perspectivas de qualidade de vida é o que move a estudante de Ciências Sociais da Universidade Regional do Cariri (Urca), Maria Elaine de Carvalho Cruz, 22. Às vésperas de concluir o curso superior, ela viu o planejamento de estudos e de vida mudar repentinamente com a suspensão das aulas presenciais devido à pandemia da Covid-19. O vírus ressaltou entraves da inclusão digital na realidade acadêmica. 

Desde abril, a moradora da zona rural do município de Jardim precisou enfrentar a mudança provocada pelo isolamento social e a implantação das atividades remotas. Antes da pandemia, Elaine vivia no Crato, onde conseguia priorizar os estudos. Ao retornar para casa, porém, a rotina das leituras e pesquisas precisou ser adequada a outro ritmo. 

Pela manhã, a estudante se divide entre cuidar de duas crianças, uma de onze meses e outra de cinco anos, e ajudar a família nas atividades domésticas, sobrando pouco espaço para se dedicar aos trabalhos acadêmicos. "Durante o dia não consigo estudar por conta desse trânsito de pessoas na casa e por conta das crianças, com quem tenho essa responsabilidade. De noite se torna mais complicado pelo cansaço da rotina, mas a gente faz esse esforço", afirma. 

Primeira pessoa da família a abrir caminho no ensino superior, acredita que sua realização serve de espelho não somente para os parentes mais novos, mas também para outros jovens da região. A estudante relata que se esforça para entregar todas as atividades passadas pelos professores, mas que, devido ao ambiente não propício ao estudo e à dificuldade de acesso à internet, precisa muitas vezes de um prazo maior que o estipulado. 

"Essa pandemia mostrou realmente os privilégios de quem pode ter ou não o acesso à educação. No meu caso, foi muito importante a compreensão dos professores para eles suspenderem as atividades selecionadas, por saber que muita gente não tem condição de enviar essas atividades no tempo hábil", compartilha a estudante. 

Conforme o professor de Zoologia da Universidade Estadual do Ceará, em Quixadá, Hugo Fernandes Ferreira, a realização de aulas remotas foi uma mudança abrupta tanto para discentes quanto para docentes. "A gente tem que entender que também são heróis esses professores que, da noite para o dia, tiveram que transformar os seus conteúdos presenciais em conteúdos online, muitas vezes, com internet ruim, com estrutura de computador que não é boa", afirma. 

No entanto, o professor pontua que essa realidade pode ser ainda mais complicada quando são analisadas as realidades dos estudantes da zona rural. "A gente está falando de um sistema no qual os alunos não estão acostumados. Isso exige do aluno uma rotina e uma dinâmica completamente diferentes", pondera. Na análise do professor, ainda que a universidade tenha começado a se tornar mais acessível para mais classes sociais, não é possível dizer que a realidade das famílias mudou de forma imediata. 

Na perspectiva de Hugo, para conseguirem estabelecer um calendário acadêmico possível para os membros da universidade, "é preciso que esses professores tenham uma capacitação, mas também que esses estudantes tenham condições, um diálogo muito forte com a universidade pública", argumenta. 

Dificuldades 
Para os estudantes Jonas Vieira, 21 anos, e Luiz Henrique, 22 anos, a possibilidade do retorno das aulas da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) é recebida com receio. Ambos com dificuldades estruturais de conexão digital acreditam que o ensino remoto possa prejudicar o aprendizado. Na visão de Jonas, aluno do curso de Letras, a distância modifica a relação com a sala de aula.

"Não é a mesma coisa de você estar com o professor, na classe. Eu vejo que é uma solução que estão tentando implementar, mas receio que nem todos consigam ter acesso a computador e à internet. Acho que vai ficar muito frágil o ensino e o aprendizado em algumas áreas, como na de saúde, por exemplo", pondera. Morador de Aracoiaba, Jonas não tem acesso à internet em casa e, durante o período de aulas, reside em uma república na cidade de Redenção, juntamente com o irmão, José Vieira, 23 anos, e outros quatro amigos. O jovem explica que o acesso à internet só é possível devido ao valor ser dividido entre os integrantes da república. Mesmo assim, Jonas não possui seu próprio computador. 

Em caso de aulas remotas, percebe que a realidade seria bem difícil, porque o celular é a única forma que possui para acessar a plataforma online para os estudantes. 

"Tem partes que não dá para abrir pelo celular. Como as aulas seriam todas disponibilizadas por ele [site], eu me sentiria completamente prejudicado. O ensino e a universidade, que são espaços que era para eu estar ocupando e que tenho direito, me seria vetado, eu seria retirado desse espaço", pontua Jonas. 

Acesso 
Luiz Henrique, por sua vez, apesar de ter um computador em casa, precisa dividi-lo com a mãe e o sobrinho, que seguem tendo trabalhos e aulas remotamente. Dessa forma, só pode utilizar o aparelho quando deixa de ser usado pelos outros familiares. A conexão com a internet também é outra barreira. O estudante de agronomia mora na comunidade quilombola Serra do Evaristo. Durante o período de aulas presenciais, vive em Baturité, devido ao deslocamento mais rápido para a Unilab.

"Se acontecer de ter que assistir à aula, eu precisaria ir até a Serra do Quilombo, mas lá a internet é muito ruim. Não dá para comparar com a internet de uma capital. Tem casas de amigos meus que a internet não chega porque é muito distante. Imagina você estudar remotamente em um canto que a internet não funciona. Provavelmente vai precisar sair de onde ele está para ir de uma cidade para Redenção", afirma. 

Para ele, por mais que se consiga um ambiente propício para o estudo, a internet lenta continua sendo um problema. "Eu tenho a possibilidade de ir até Baturité para assistir melhor, mas estou seguindo isolamento. A pandemia traz uma questão que você tem que olhar para o outro, não é só você".                        (Diário do Nordeste)

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