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Pesquisa inédita aponta que gripe espanhola deixou mais de mil mortos no Cariri

O estudo utilizou registros das igrejas das cidades do Cariri. FOTO: Fátima Pinho/Dep. História Urca
Uma pesquisa inédita, desenvolvida pela professora Fátima Pinho, da Universidade Regional do Cariri (Urca), e pelo professor Jucieldo Alexandre, da Universidade Federal do Cariri (UFCA), mostra que a epidemia da gripe espanhola matou mais de mil pessoas no Sul do Estado. 

O levantamento foi feito a partir dos livros de óbitos de 15 paróquias, que estão registrados no Departamento Histórico Diocesano Pe. Antonio Gomes de Araújo (DHDPG). Os óbitos aconteceram entre outubro de 1918 e maio de 1919. 

O levantamento utilizou os registros das igrejas de Araripe, Assaré, Barbalha, Brejo Santo, Caririaçu, Campos Sales, Farias Brito, Jardim, Juazeiro do Norte, Lavras da Mangabeira, Mauriti, Milagres, Missão Velha, Porteiras e Umari. Ao todo, contabiliza 1.013 mortes em decorrência da primeira pandemia causada pelo vírus H1N1 — outro surto pelo mesmo tipo de influenza aconteceu em 2009. 

Os dados, no entanto, não trazem informações das paróquias de Crato, Várzea Alegre, Aurora, Missão Velha e Santana do Cariri. Isso aponta que o número de vítimas pode ser bem maior, já que os dois pesquisadores, em jornais da época, descobriram que no primeiro Município a doença chegou a causar, em média, oito mortes por dia. “Em Crato, teve uma grande incidência”, conta Fátima Pinho. 

A título de comparação, o número de óbitos é superior a quantidade de mortes atual pela pandemia da Covid-19, na macrorregião do Cariri. Formada por 45 municípios e uma população estimada de 1,5 milhão de pessoas, o novo coronavírus já deixou 454 vítimas no Centro-Sul e Sul do Ceará.



Surgimento 
Fátima conta que, a partir dos registros nos livros de óbitos, foi possível determinar quando a doença chegou ao Sul do Estado. “A partir de outubro de 1918 já tem notícias da gripe chegando no Crato”, narra a historiadora. Ela acrescenta que as causas das mortes eram descritas por “bailarina”, apelido dado à doença na época.

Com os dados da incidência de mortes, os pesquisadores traçaram um caminho do vírus até o Sul do Estado. 

“Ele chega no Brasil via marítima, no final da Primeira Guerra Mundial. Em setembro, um navio inglês, Demerara, parte de Liverpool, passa por Lisboa e Dacar, antes de chegar em Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Nestes lugares já registram pessoas doentes e mortes”, conta Jucieldo Alexandre. 

Na medida em que os meios de transporte, no início do século XX, facilitavam a circulação de pessoas, também propiciavam contaminação destes microrganismos. Na época, o comércio portuário e o transporte ferroviário foram os grandes propagadores do vírus da H1N1. “A doença chega em Fortaleza no final de setembro. No começo de outubro já um número de casos e, rapidamente, vai migrando para o Sul”, completa o pesquisador. 

O levantamento da professora mostra que a primeira morte aconteceu em 8 de outubro de 1918, em Lavras da Mangabeira, que teria sido a primeira cidade da região a receber a doença, pois, era o destino final, até então, da linha Sul da Estrada de Ferro de Baturité — o Crato inauguraria sua estação apenas em 1926. “Em novembro, foram 101 mortes, destas, 38 em Lavras da Mangabeira”, detalha Fátima Pinho. 

No entanto, as cidades que tiveram maior número de vítimas foram Jardim e Brejo Santo, com 193 e 182 mortes cada, respectivamente. Fátima acredita que isso aconteceu porque estes dois municípios estão na divisa com o estado de Pernambuco, um dos que mais tiveram casos de pessoas contaminadas no Brasil e a primeira porta de entrada do vírus no país a partir do navio inglês. 

Vítimas 
Ao contrário da Covid-19, a maioria das vítimas da gripe espanhola do Cariri foram entre crianças de zero a 10 anos, totalizando 294 mortes. A faixa etária entre zero a 20 anos representa 43,7% do total óbitos. 

“Isso é explicado por pesquisadores. Os idosos já tinham desenvolvido outros anticorpos pois passaram por outras ondas de epidemias anteriores”, explica Fátima. 

Jucieldo aponta que, como toda epidemia, as camadas mais marginalizadas são as que mais sofreram com a doença. “Por ser maioria, estão numa situação social mais precária, como acessos a serviços de saúde, saneamento básico, água pura. Na gripe espanhola todos os historiadores apontam essa tendência, incluindo pessoas de áreas rurais”, ressalta o pesquisador. 

Mas, a doença também fez vítimas entre as classes menos vulneráveis, embora em menor escala. Pelo obituário do jornal cratense Gazeta do Cariri na época, digitalizado pelo Instituto Cultural do Cariri (ICC), pessoas com maior poder aquisitivo também morreram por conta da doença. “Cita alguns nomes e vão elencando as (pessoas) mais vistosas”, observa Jucieldo. 

Já na folha de óbitos da Igreja, Fátima localizou, por exemplo, a morte de João Correia de Macêdo, filho do mecânico Pelusio Correia de Macêdo, amigo do Padre Cícero. 

“Mostra que não foi só pobre que faleceu (pela doença)”, destaca Fátima.                    (Diário do Nordeste)

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