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Ainda com medo, famílias têm terceiro dia de retorno às casas em Jati

Morador retorna para a casa com ajuda de amigos e tenta voltar à normalidade após o susto com a barragem. FOTO: KID JÚNIOR
Todas as inspeções realizadas mostram que a barragem de Jati está segura, mas ainda é difícil para quem viveu o primeiro estrondo, o barulho da sirene e fugiu de casa com a roupa do corpo após o vazamento de uma tubulação. 

Maria Francisca, na Vila Ipê, não se esquece de quando precisou acudir uma criança de poucos meses do colo da mãe, que estava prestes a desmaiar no meio da estrada, correndo sozinha na noite dos aflitos. Voltou na tarde de ontem (26) para casa, não porque quisesse, mas a casa da irmã já eram quatro pessoas, com os seis dela, era uma confusão de gente em casa.

"Eu pelejei a encontrar uma casa pra alugar, só pra não voltar, mas não encontrei", diz Francisca, enquanto coloca roupas e móveis para dentro de casa - após a primeira noite tendo fugido com a roupa do corpo, a família pode voltar em casa para pegar o essencial. 

Passados os quatro dias distante do lar, o retorno foi um susto para a filha Emanuela, de apenas dois anos e, pelo pouco que já fala, correu para os braços do pai: "olhe, a barragem tá estourando, tá vendo?". Eram apenas os novos estrondos causados pelos caminhões descarregando com pedras para recompor a talude da barragem. A preocupação de Francisca, no entanto, é como poderá ficar esse trauma nas crianças, assim como nos adultos, da fatídica noite em que saíram correndo de suas casas.

O agricultor Antônio Nilo, de 78 anos, saiu de casa com o "coração na mão", mas volta a fé de que "não vai acontecer mais". Do seu quintal de onde se via a tromba d'água gerada pelo rompimento, agora são apenas os novos estrondos, causados pelos caminhos descarregando pedras. Um som que, ainda assim, assusta. "Voltei para minha casa, graças a Deus. Tenho fé que vai ficar tudo bem, não é possível que tenha mais perigo, né?". Fala enquanto "olha" para os fortes barulhos vindos da obra do açude. 

As empresas do consórcio operador da barragem e a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil seguem acompanhando as famílias, da saída ao retorno, com o fornecimento de alimentos e, em alguns casos, no translado de volta com a mobília. Na última terça-feira, o Ministério do Desenvolvimento Regional liberou R$ 100 mil para ajudar na assistência às famílias atingidas pela evacuação. 

Recuperação deve ser concluída até o fim do mês 
Esse trabalho de recuperação acontece dia e noite e deverá ser concluído até o fim do mês, conforme Tiago Portela, coordenador de obras e fiscalização do Ministério do Desenvolvimento Regional. "A prioridade total e plena é restabelecer a parede que foi erodida pelo jato da água. A gente está trabalhando 24 horas por dia, cerca de 200 pessoas envolvidas e cerca de 100 equipamentos mobilizados". 

Os mapas entregues pelo consórcio operador da barragem, que serviram para as famílias reconhecerem se suas casas estão dentro da "área de inundação", agora são uma georreferência do medo, pelo menos neste primeiro momento de retorno. "Agora é ver onde não pode inundar e ir pra lá, pro alto", afirma a dona de casa Maria Francisca. 

A Vila dos Ipês, também denominada agrovila, viu na proximidade do açude uma oportunidade de água para o plantio e a criação. Raimundo Andrade, só conhecido por Haroldo, tem fé na criação de gado, no milho e no feijão. Quando a tubulação estourou, saiu de casa com a família, e disse para a esposa que fosse para onde mora seu irmão. Ele e o vizinho Manuel passaram a noite dormindo no mato, em área alta. Não quis se afastar de casa e dos bichos que cria. "Eu precisava dar de comida a eles, então, mesmo não podendo, vinha em casa de dia e à noite ficava no relento". 

Na noite do estrondo, Haroldo lembra que a vila parecia uma 'festa de vagalumes', só com a luz dos celulares acesos no meio da rua e da aflição.                        (Diário do Nordeste)

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