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'Não podemos falar em 2ª onda se ainda não terminou nem a 1ª', diz secretária-executiva da Sesa


A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mantém alerta para uma "possível retomada de crescimento" de casos de Covid-19 no Ceará, de acordo com o Boletim Infogripe mais recente, emitido na última sexta-feira (7). No entanto, para a secretária-executiva de Vigilância e Regulação da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), Magda Almeida, não é possível falar de um novo estopim de casos, porque o Estado ainda não encerrou o primeiro. 

O que há, até então, é uma sobreposição de casos entre os picos de Fortaleza e de cidades do Interior. 

Com a desaceleração da doença, o Governo do Estado tem remanejado leitos antes destinados para Covid-19 a outras especialidades médicas. Além disso, a política de testagem por RT-PCR, considerada a mais confiável, deve ser ampliada também para casos mais leves e até mesmo assintomáticos, a fim de rastrear contatos de infectados. A análise deve ser ampliada em cinco vezes ainda neste mês, com o início das operações da Central Analítica da Fiocruz, no Eusébio. 

Entrevista 
No dia 16 de abril, a senhora informou que as UTIs para Covid tinham atingido 100% de ocupação e, inclusive, tinha gente esperando por leito na fila. De lá para cá, como isso evoluiu? 

Magda Almeida - A gente faz a análise por região. Naquela época, quando a gente falava em pressão assistencial muito grande, era principalmente do sistema de Fortaleza. Agora, podemos dizer que a gente está mais confortável na Capital, mas ainda temos no interior uma pressão importante fazendo com que a ocupação de leitos esteja mais complicada. 

A intenção da regionalização é que a gente resolva na própria região os problemas de média e alta complexidade. Obviamente, quando há necessidade, esse paciente ainda assim é transportado para Fortaleza. Cariri e Sertão Central têm nos preocupado mais nas últimas semanas. 

Quais são as hipóteses para a curva de casos e óbitos ter reduzido em Fortaleza? 
Magda Almeida - Observamos que os decretos de isolamento rígido tiveram papel muito importante pra isso. 

Quando a gente fala em pico, o ideal é que a gente tivesse um platô. Algumas regiões tiveram nível mais alto que continuou por bastante tempo. Na Capital, tivemos um pico de óbitos e, com as medidas de isolamento rígido, a gente conseguiu diminuir essa velocidade. Quando Sobral começou a ter uma tendência na mesma velocidade, a gente agiu rápido para decretar o isolamento rígido, e logo depois dele existe uma redução. Na curva dos óbitos, também temos que considerar a maturidade do sistema de saúde porque é uma doença nova; avaliamos a melhora das condutas e a estruturação das UTIs. 

Num primeiro momento, os respiradores não tinham chegado, então ficamos sem a quantidade adequada. Depois disso, normalizamos e conseguimos reduzir o número de óbitos. 

A taxa de transmissão do Ceará tem estado abaixo de 1 há algum tempo, mas com o afrouxamento das pessoas, tem risco de ela voltar a subir? 

Magda Almeida - Sempre tem o perigo, por isso não podemos baixar a guarda. Continuamos com o uso de máscaras e isolamento para evitar outros picos de contaminação. O ideal é que ele fique abaixo de 1, quando uma pessoa doente transmite para menos de uma pessoa. Com isso, a gente consegue interromper o que chamamos de cadeia de transmissão. Se começarmos a relaxar, existe, sim, o risco de voltarmos a ter uma onda maior de contaminação. 

A Fiocruz, no último Boletim Infogripe, mantém um alerta de possível segunda onda no Ceará. Existe algum indicativo de que o Estado passe por esse fenômeno depois da Fase 4 de reabertura? 

Magda Almeida - Na verdade, o que temos visto desde a fase de transição (no início de junho) é que, apesar de abrirmos cada vez mais atividades econômicas, isso não tem impactado, em Fortaleza, no aumento do contágio. 

Em relação ao Infogripe, a gente observa que não podemos falar em segunda onda se a gente não terminou a primeira. O que temos é uma sobreposição de ondas. Começou na Capital, depois veio o Interior. Ainda estamos na primeira onda de contágio. Fortaleza está mais estável, mas ainda há possibilidade de pequenos surtos. A gente ainda acha muito precoce falar de segunda onda. 

Os indicadores assistenciais são mais sensíveis a mudanças porque é praticamente tempo real. A taxa de ocupação das UTIs, por exemplo, na última semana, esteve oscilando em torno dos 70%. Isso está no esperado? 

Magda Almeida - Não podemos deixar de estar alerta. Temos feito o remanejamento de leitos Covid para outros pacientes sem Covid. Por isso, temos um número de leitos menor para Covid e, por isso, mantemos essa ocupação elevada. Uma UTI sem funcionar não serve de nada, ela não pode estar sem pacientes. 

A taxa de ocupação entre 70% e 80% seria ideal pra gente. Como estamos fazendo o remanejamento de leitos, a taxa de ocupação quando a gente reduz, deve ficar nessa variação entre 60 e 70%. 

Esse remanejamento está ocorrendo só em Fortaleza e RMF? 

Magda Almeida - Outros municípios começaram a reduzir. Os que tem cenário epidemiológico mais favorável, como Sobral e alguns da região do Cariri que agora já tem mais tranquilidade, com leitos mais vagos. 

Esses leitos serão mantidos pós-pandemia? Há margem orçamentária? 

Magda Almeida - Havia planejamento já pelo plano de modernização da Sesa e da regionalização da saúde para ampliar esses leitos de UTI em 4 anos, o que acabamos fazendo em 4 meses. Já temos sim dotação orçamentária para a manutenção desses leitos. Obviamente, como no SUS existe o financiamento tripartite, a gente precisa de ajuda de recursos federais, com a habilitação de leitos, e contrapartidas dos municípios. 

No Interior, serão abertos mais leitos ou já são suficientes? 

Magda Almeida - O único local onde ainda vamos fazer maior investimento é na região Leste/Jaguaribe. A gente vai abrir até o final do ano o Hospital Regional, que vai ser ponto de apoio. 

O Ministério da Saúde tem quase 10 milhões de testes para Covid-19 parados por falta de reagentes. Como está esse cenário no Ceará? Tem teste e reagente suficiente? 

Magda Almeida - No centro de operações de emergência, que começamos em janeiro, fizemos um planejamento esperando alguns recursos do Ministério, mas também investindo recursos próprios. Fizemos compra de material para teste, não só reagentes como kits de extração e swab. Hoje em dia, não temos mais escassez de insumos até porque foi uma corrida mundial atrás desses mesmos bens. 

Todo mundo sofreu com dificuldade de fornecedor. Hoje, estamos numa posição mais confortável, esperando para as próximas semanas o início da Central Analítica da Fiocruz, que vai ter capacidade para até 10 mil testes por dia. Nossa capacidade é de 2.500. 

Até o fim do ano, esperamos a compra de novos equipamentos para o Laboratório Central (Lacen) para aumentar mais essa testagem. Nos próximos 15 dias, o pessoal da Fiocruz terá feito o treinamento, e poderão iniciar o processo. 

Qual a situação hoje de espera pelo resultado dos testes em Fortaleza e também no Interior? 

Magda Almeida - Nossos testes saem em até 48h, tanto no Lacen quanto nos laboratórios parceiros - isso quando chega no Lacen. Às vezes, demora um pouco mais pela dificuldade logística de pacientes do Interior, por causa do tempo do transporte. O paciente da Capital recebe em até 48h. Muitas vezes, para pacientes internados, a gente faz em até 24h e, para os que precisam ser transplantados, em até 4h, que é a prioridade total.

Também temos exames cadastrados que aparecem no IntegraSUS, estão registrados, mas as amostras não chegaram ao Lacen. Hoje, não temos represamento de amostra. Todas as que chegam são prontamente analisadas. 

Existe alguma nova tecnologia de teste à vista? 

Magda Almeida - O mundo todo tem investido na tecnologia por RT-PCR (Biologia Molecular) para que ele seja mais rápido, com extrações rápidas e grandes equipamentos com maior capacidade de análise. Ele ainda é o exame "padrão ouro", o que dá o diagnóstico preciso. 

No Ceará, o estoque mais confortável é de testes rápidos ou RT-PCR? 

Magda Almeida - O teste rápido foi importante numa época em que a gente não tinha insumo para a triagem dos pacientes mais graves, se iriam pra UTI ou enfermaria. Não é o cenário atual. Temos investido no RT-PCR. Nossa meta é diagnosticar e rastrear também os pacientes leves. 

Agora, estamos ampliando até para os assintomáticos, nos casos de contatos. Os testes rápidos que temos ainda são usados em inquéritos sorológicos, para que a gente entenda a questão dos anticorpos, mas não é nossa estratégia principal de testagem. Sobre as escolas, temos a recomendação que, quando voltarem, as crianças vão precisar ser testadas. 

Para conter surtos de coronavírus, que é o que a gente espera que aconteça - pequenos surtos controláveis -, as crianças e seus contatos, professores, colegas de sala, quando apresentarem síndrome gripal, vão precisar ser testadas e isoladas. A outra parte são os inquéritos de circulação viral nos colégios. A gente pretende fazer um cálculo amostral. Isso não se sobrepõe à estratégia de contenção.                                  (Diário do Nordeste)

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