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Trancamento de matrículas cresce e 5,7 mil alunos de universidades públicas param cursos na pandemia

FOTO: Natinho Rodrigues

Quando a pandemia teve início e as aulas presenciais foram suspensas, tanto na educação básica como no ensino superior, um dos efeitos projetados era o abandono dos estudos. Nos ensinos fundamental e médio, as escolas saberão se o problema se confirmará, de fato, ao término do ano letivo. Nas universidades, a divisão por semestre faz com que o afastamento dos alunos, durante a pandemia, já seja uma evidência. 

No Ceará, dados da Universidade Federal (UFC), da Universidade Estadual (Uece) e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) confirmam que, entre o semestre anterior à pandemia e o de início da crise sanitária, se calculada a soma das matrículas nos cursos de graduação nas três instituições e a soma dos trancamentos, a proporção de alunos que se desligou momentaneamente passou de 5,8% para um total de 8,9%. 

Ao todo, 77.766 estudantes se matricularam nas três instituições no semestre anterior à pandemia e 63.700, no semestre no qual houve confirmação de casos de Covid no Brasil. Considerando os números absolutos de trancamento nas três instituições públicas de ensino superior, eles passaram de 4.563 – no semestre anterior – para 5.709 no decorrer da pandemia. Um aumento de 25% no total de matrículas trancadas.

No ensino superior, os alunos têm o direito de parar temporariamente a formação ao suprimirem as disciplinas e registrarem o trancamento da matrícula. Em cada instituição, o estudante tem um tempo limite para permanecer afastado. Essa ação não é excepcional e pode ocorrer por inúmeros fatores. Mas, durante a pandemia, a proporção de alunos que trancou a matrícula, sobretudo, na UFC e na Uece, é maior do que no semestre precedente à atual crise sanitária. 

Na UFC, conforme dados da instituição, no semestre anterior à pandemia (2019.2), havia 28.613 alunos matriculados e foram registrados 349 trancamentos. O que representa 1,2% do total de estudantes. Já no semestre de início da pandemia (2020.1), eram 30.154 matrículas, com o registro de 2.154 trancamentos. Uma proporção de 7,1%. 

Na Uece, o aumento do número de universitários que suspenderam momentaneamente a formação também foi expressivo. Na instituição, o semestre anterior à pandemia era 2019.1, e tinha 16.990 estudantes matriculados e 630 trancamentos. O equivalente a 3,7% do total de alunos. Já no semestre no qual a crise sanitária teve início (2019.2), havia 16.848 matrículas e 1.447 trancamentos. O que significa 8,5% do total. 

No IFCE, a variação foi mais sutil. Mas, também ocorreu. Quando a pandemia começou, conforme a instituição, “nem todos os campi estavam no semestre 2020.1 por conta da reposição das aulas que vinham ocorrendo nos semestres anteriores”. Mas, se comparada a proporção de matrículas e trancamentos em 2020.1 aos registros do semestre anterior à suspensão das aulas presenciais, a situação é a seguinte: antes foram 32.163 matrículas e 3.584 trancamentos (11,1%). Na pandemia, foram 16.698 matrículas e 2.108 trancamentos (12,6%). 

Adaptações diante da pandemia 
Nas três instituições, devido às circunstâncias atípicas, foram criados mecanismos de trancamento distintos do convencional. Na Uece, ao final do semestre, os estudantes puderam suprimir quaisquer e quantas disciplinas quisessem, independentemente do semestre, mesmo que estivessem reprovados por falta ou por nota, explicou a universidade, por meio de nota. 

Já na UFC, após a elaboração do Plano Pedagógico de Emergência, o período letivo foi reiniciado de forma remota em 20 de julho e, então, os estudantes puderam excluir componentes curriculares sem prejuízo ao Índice de Rendimento Acadêmico (IRA). No IFCE, segundo a instituição, normativas internas possibilitaram uma ampliação na quantidade de trancamentos por aluno, para evitar ou minimizar o índice de evasão. 

A estudante Jennifer Sanye, do curso de Engenharia Ambiental do IFCE de Juazeiro do Norte, é uma das que têm tido percalços para seguir nas aulas remotas. Ela conta que não suspendeu todas as disciplinas do semestre, mas vivenciou o dilema de ter que trancar diversas, durante a pandemia. 

No começo da crise sanitária, além de não ter computador em casa, o acesso à internet não era adequado. Além disso, afirma, diversos problemas familiares têm tornado mais conturbado ainda esse momento. No decorrer dos últimos meses, explica, conseguiu “concluir mais uma cadeira, de estatística. Concluí três, mas tranquei oficialmente outras três. No momento, estou trabalhando e desenvolvendo uma revisão bibliográfica para meu primeiro artigo”. Atualmente, a estudante faz uma disciplina e trabalha em um restaurante exercendo diversas funções. 

As universidades citadas relatam que, como medidas para tentar reduzir o possível abandono, adotaram ações como a distribuição de chips e tablets, na tentativa de assegurar a alunos acesso e permanência em aulas remotas. 

Trancamento como efeito direto da crise sanitária 
O professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará, Ruy de Deus e Mello Neto, explica que era esperado o trancamento como um efeito direto da pandemia. 

“Segue uma tendência anterior à própria pandemia. A universidade pública, com maior ênfase em alguns cursos, já tem tratado da evasão como um problema há algum tempo. A pandemia, aliada a uma crise econômica sem precedentes, serviu para piorar a situação”, destaca. 

De acordo com ele, boa parte dos alunos se viu obrigado a trancar os seus cursos em função das dificuldades impostas pelo ensino remoto, enquanto outros tiveram que descontinuar a formação por questões de subsistência mesmo.

“Casos em que famílias perderam parte significativa da renda durante o período pandêmico são comumente relatados pelos nossos alunos, fazendo com que a busca por empregos e trabalhos pontuais aumente significativamente”. O professor reforça ainda que o fato de o aluno estar em casa, sem a obrigação de se deslocar para a universidade, “aumenta ainda mais a pressão sobre ele”. 

Dilemas específicos do ensino superior 
Na pandemia, todas as áreas da educação têm sido comprometidas, mas, na avaliação do professor, no caso do ensino superior, os dilemas específicos estão relacionados à questão da idade dos estudantes. 

“Diferentemente de outras etapas do ensino, que também sentem impactos, frise-se, o estudante no ensino superior tende a pertencer à uma faixa etária economicamente ativa. De tal maneira, a pressão por trabalho, retorno financeiro e mesmo o cálculo entre vantagens e desvantagens da manutenção de um curso remoto tornam-se elementos centrais na vida desse estudante. O fato de estarem em idade laboral é, provavelmente, um dos maiores fatores de impacto para o aumento da evasão”. 

Outros fatores, pondera ele, são: a questão legal, pois, diferentemente das outras etapas, na universidade, o estudante não tem obrigação de se manter matriculado; o poder de decisão nas mãos do próprio aluno, “fazendo com que o dia a dia defina as possibilidades de trancamento ou não” e a possibilidade de desacelerar o curso, fazendo apenas parte das disciplinas. 

Estudantes cancelam cursos 
Na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), na cidade de redenção, no semestre 2020.1 havia 5.009 estudantes matriculados e 43 trancaram. Não foram disponibilizados dados do semestre anterior. Outra informação é que 249 alunos de graduação, três de mestrado e 111 de especialização cancelaram os cursos em 2020.1. 

Na Universidade Federal do Cariri (UFCA), a situação é distinta, pois, segundo a instituição, “como o semestre 2020.1 está suspenso, não há necessidade de trancamento do curso”. Ainda assim, 32 estudantes, dentre 3.593, optaram por trancar a matrícula. Segundo a UFCA, o semestre continua suspenso e, no momento, os alunos avançam na carga horária por meio do Período Letivo Especial, com aulas remotas opcionais. Aderiram ao PLE 2.817 estudantes. Os demais aguardam a reabertura do semestre, em fevereiro de 2021, no formato remoto.

(Fonte: Diário do Nordeste)

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