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Falta de medicamento ameaça suspensão de transplantes de medula óssea no Ceará

FOTO: Camila De Almeida

A falta de um medicamento essencial no processo de transplante de medula óssea vem preocupando médicos e pacientes no Brasil há mais de 30 dias. Isso porque o laboratório francês Pierre Fabre, único distribuidor deste fármaco no País, anunciou, em novembro de 2020, à Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO), que não irá mais fabricar o bussulfano, destacando a suspensão da distribuição do medicamento em junho de 2021. 

No Ceará, o chefe do setor de hematologia e transplante do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), em Fortaleza, Fernando Barroso, que é também diretor da SBTMO, explica que o medicamento é essencial no transplante de medula óssea. Antes de fazer o transplante, o paciente precisa tomar este fármaco, pois ele prepara o organismo para a cirurgia, sendo responsável por uma “limpeza” no organismo. 

“O bussulfano faz parte de uma etapa do transplante que chama-se condicionamento. Nós precisamos instruir as células da doença para que aquela medula possa receber as células sadias”, explica. 

A Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea chegou a enviar comunicado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) solicitando solução sobre a falta do medicamento. Até o início deste mês, a SBTMO não tinha recebido retorno. 

Procurada, a Anvisa informou, em nota, que “não possui instrumento legal que impeça os laboratórios farmacêuticos de retirarem seus medicamentos do mercado”. 

Ainda segundo a nota da Agência, foi realizada reunião no último dia 8 de janeiro (sexta-feira) com a empresa Pierre Fabre, onde foi apontado pela distribuidora francesa que há um estoque disponível do medicamento para atender à demanda nacional prevista até junho de 2021. Segundo a reguladora, “a empresa realizará nos próximos dias uma solicitação excepcional à Anvisa, para a importação de um quantitativo deste medicamento, suficiente para abastecer o mercado nacional por mais um ano”. 

No entanto, a incerteza da continuidade da distribuição do medicamento no segundo semestre deste ano assombra as unidades hospitalares, médicos e, principalmente, pacientes que necessitam da realização dos transplantes. “É necessário que haja uma reflexão sobre isso. Isso se trata de um problema de Estado”, aponta Fernando Barroso. 

Também procurado, o Ministério da Saúde (MS) não retornou sobre o assunto até o fechamento desta matéria. A página será atualizada em caso de recebimento de respostas. 

Situação no Ceará
O Hospital Universitário Walter Cantídio é a única unidade pública a operar transplantes de medula óssea no Estado. Neste momento, a unidade hospitalar informou que há estoque do medicamento para realização dos transplantes para apenas os próximos três meses — ou seja, até março de 2021. “Isso depende também do número de transplante que a gente realiza. Mas dentro de uma pré-realidade, a gente pode falar em três meses”, informa Fernando Barroso. 

O chefe do setor de transplante do HUWC também ressalta que a medicação é essencial para realizar o transplante de medula óssea alogênica, operação em que o paciente recebe medula de outra pessoa, não necessariamente da família. 

Atualmente, o HUWC tem, em média, 80 pessoas na fila de transplante no Ceará. “O único hospital que faz transplante alogênico pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Ceará é o Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC). Isso é muito impactante, realmente tem um desdobramento que pode afetar a vida das pessoas”, aponta. 

Conforme o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a expectativa de novos casos de leucemia para o triênio (2020 – 2022) é de 10.810, sendo 5.920 homens e 4.890 mulheres. Esses valores correspondem a um risco estimado de 5,67 casos novos a cada 100 mil homens e 4,56 para cada 100 mil mulheres. 

De acordo com dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), o Ceará teve 217 transplantes de medula óssea realizados em 2019. Do total, 76 foram realizados no HUWC, enquanto os outros 138 se dividiram em cinco hospitais da rede privada do Estado. Entre janeiro e setembro de 2020, a ABTO contabilizou 56 transplantes, sendo 40 realizados no HUWC. Já os dados do Inca, mostram que no Ceará, 57 pacientes deram entrada no cadastro para a realização do transplante de medula óssea, de janeiro a novembro de 2020. 

O cenário dos transplantes de medula óssea no Ceará em 2019 e 2020 aponta de 4 a 6 cirurgias por mês, conforme dados do HUWC. Em 2019, foram realizados entre 4 e 7 transplantes por mês, com exceção de julho, onde foram registrados 10 procedimentos. No ano passado, durante os meses de pico da pandemia do novo coronavírus, a média foi similar à de 2019 — 4 a 6 transplantes por mês —, mesmo com a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para Covid-19 com ocupação máxima. 

Mobilização nas redes sociais 
O assunto já assombra os pacientes que necessitam do medicamento para realização do transplante de medula óssea, tanto no Ceará como no restante do Brasil, desde novembro de 2020, quando foi anunciado que o bussulfano não seria mais distribuído no Brasil a partir de junho de 2021. Houve grande movimentação nas redes sociais pedindo uma solução rápida para o caso. 

Em publicações no Twitter, pacientes, parentes e amigos formam um ciclo de apoio em busca de uma solução e respostas dos órgãos responsáveis, como Anvisa e Ministério da Saúde.

Doadores de medula óssea 
No Ceará, o Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (Hemoce) é responsável por receber o cadastro de possíveis doadores de medula óssea. Em 2019, foram 13.812 voluntários cadastrados. Em 2020, o número total do ano foi de 9.246, queda de 33% em comparação ao ano anterior. Já em janeiro de 2021, até essa quarta-feira, 13, foram cadastrados 271 possíveis doadores. 

Segundo o Hemoce, qualquer uma das unidades do órgão em Fortaleza e no interior do Ceará podem realizar o cadastro. Para isso, é necessário ter entre 18 e 55 anos de idade, não ter tido histórico pessoal de câncer, apresentar um documento de identificação original com foto, preencher um formulário com dados pessoais e coletar uma amostra de sangue para os testes de compatibilidade.

(O Povo)

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