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Na pandemia, mulheres perderam mil empregos no Ceará, enquanto homens ganharam 10 mil vagas

Fernanda Moura trabalhou como escrevente durante 15 anos na mesma empresa, mas foi desligada durante a pandemia. Com isso, resolver abrir um comércio em casa. Foto: Kid Junior

As mulheres ganharam mais um lugar indesejável no ranking de penalizações sociais ao acumularem mais demissões do que os homens durante a pandemia, em 2020. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério da Economia revelam um saldo positivo de 10.063 postos de trabalho para homens de março a dezembro do ano passado, no Ceará, enquanto as mulheres perderam 1.054 empregos no mesmo período. 

O analista de mercado de trabalho do Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (IDT), Erle Mesquita, frisa que, historicamente, mulheres estão em igual patamar a segmentos populacionais como pessoas com deficiência, com idade avançada ou egressos do sistema penal quando se trata de dificuldades no mercado de trabalho.

Só 4 em cada 10 mulheres estão no mercado 
“Geralmente, a taxa de participação dos homens gira em torno de 66%, ou seja, pelo menos 6 em cada 10 homens estão no mercado de trabalho. Quando a gente olha pras mulheres, esse número é no patamar de 40%, ou seja, não chega nem na metade. Então, enquanto mais da metade dos homens estão inseridos no mercado de trabalho, essa relação inverte entre as mulheres”, diz o analista.

Considerando todo o ano passado, o levantamento do Caged mostra a criação de 15.989 postos de trabalho para homens e apenas 2.557 para mulheres no Ceará. Os dados também revelam que o mês de abril teve o pior cenário de demissões para mulheres. Elas perderam 13.806 postos de trabalho. 

No cenário nacional, a disparidade entre homens e mulheres é ainda mais alargada, tendo o País gerado 230.294 mil empregos para os homens, e fechado 87.604 postos de trabalho para mulheres em 2020. 

“Mostra que realmente a tendência é a mesma. Independentemente do espaço geográfico, isso acaba reproduzindo uma questão cultural do mercado de trabalho”, frisa Mesquita. 

Mulheres ganham 60% do salário dos homens 
Embora o discurso de reforço às pautas feministas, ao respeito pelos direitos das mulheres e pela luta delas por ocupação de lugares sociais venha sendo incorporado pelo mercado, especialmente com investimento em marketing, na prática, a principal discrepância entre os gêneros é evidente. Elas continuam ganhando menos do que eles. 

“A luta pela mulher no mercado de trabalho é permanente. O nível de educação das mulheres é igual ao dos homens, mas ganham 60% do que os homens. Ganham menos e na hora de botar pra fora são as mais afetadas. Significa que nossa sociedade ainda tem essa diferenciação de gênero”, enfatiza a economista Silvana Parente. 

'Eles sempre perguntam se temos filhos' 
Além disso, não é raro uma mulher ser questionada sobre filhos ao realizar uma entrevista de emprego, confirma Joyce Lourenço, publicitária desligada da empresa no início da pandemia. “Eles sempre perguntam se tem filhos.” 

O analista de mercado Erle Mesquita concorda que é o tipo de desafio imputado exclusivamente a mulheres. 

“Apesar de algumas melhorias ao longo do tempo, essas mudanças são muito lentas, os desafios para as mulheres já começam até mesmo dentro do processo seletivo, como se a questão de cuidados dos filhos fosse uma coisa exclusivamente feminina. Isso acaba representando uma barreira a mais. São perguntas que não passam no repertório das entrevistas com homens”, avalia.

A publicitária passou por processos seletivos ao longo de 2020, mas relata dificuldades. 

“Acredito que não consegui ainda porque as ofertas atualmente são com salários muito baixos e com mais especialidades. Outra coisa é que as empresas estão trabalhando mais com PJ (Pessoa Jurídica) e ainda tenho uma resistência”, diz a jovem. 

A modernidade apenas aparente também se comprova com a sobrecarga de tarefas, frequente para as mulheres devido à divisão social de atividades como as do lar, fruto de uma estrutura patriarcal da sociedade. Intensificado com a pandemia, o fator acaba prejudicando a trajetória da mulher no mundo do trabalho. 

“Houve fechamento das atividades econômicas, das escolas. O retrato é muito claro, as mulheres foram mais penalizadas nesse contexto, prejudicadas em todas as áreas. O setor da construção civil teve um processo de recuperação mesmo na pandemia, isso acabou tendo resultado mais favorável para os homens. Embora a gente saiba que no contexto geral todos foram penalizados com a pandemia, as mulheres tiveram um resultado ainda pior”, observa o analista. 

Disputa de espaço 
Renata Mesquita foi desligada da empresa em abril. Recém-contratada, mas com experiência de oito anos na área de consultoria de franquias, ficou surpresa com a decisão. O fato de ser a única mulher entre sete homens atuando no seu setor fez com que ela sentisse um incômodo por parte dos colegas. 

“Existia um gerente e seis assessores, todos homens. A percepção, que demorei um pouco a sentir, era de que eles se sentiam incomodados porque eu sabia demais sobre o assunto da minha área. Depois isso ficou muito mais latente. Não sei se, de repente, isso teve influência, mas aconteceu”, conta. 

Reinvenção 
A jornada profissional de Fernanda Moura como escrevente também foi encerrada durante a pandemia, após mais de 15 anos trabalhando no mesmo cartório, em Fortaleza. 

“Como lá tirava quase que um salário só de extra, pra mim o baque foi gigantesco. Primeiro momento que ela me mandou pra casa já tive que me virar fazendo algo em casa”, relembra. 

A saída para se reerguer financeiramente está sendo enveredar pelo comércio. 

“Pensei em comprar o que consumo em grande quantidade para vender, fui em armazém e comprei pra ter uma rotatividade de dinheiro. Mas ainda tô no seguro, tô engatinhando ainda no comércio, está indo. É o que está me dando uma certa segurança porque tenho uma expectativa de crescimento, tanto que no momento não penso em procura algo no mercado”, relata.

(Fonte: Diário do Nordeste)

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