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Memória viva das estradas de ferro, ex-maquinista que reside em Crato completa 100 anos: sonho, persistência e dedicação

Cícero ao lado da atual esposa, Maria Carmina Lima, durante comemoração de aniversário. Foto: Valéria Alves

O destino de Cícero Monteiro de Lima se desenhava natural: nascido na zona rural de Aquiraz, seria agricultor. Sem muita instrução, mas sempre batalhador, subverteu a própria sina e saiu de casa aos 16 anos. Inicialmente, foi trabalhar em um restaurante. Pouco depois, passou a servir café na Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA), se aproximando, assim, do sonho de ser maquinista. E conseguiu. Permaneceu na função por 36 anos até se aposentar, em 1976. Nesta sexta (19), Cícero completou 100 anos de idade, sendo ele mesmo memória viva da estrada de ferro que, por muitos anos, levou desenvolvimento e sonhos de uma ponta a outra do Ceará.

Foi trabalhando como ferroviário que Cícero manteve seus 15 filhos — seis do primeiro casamento, oito de segundo e um fora do matrimônio. Ainda tem 50 netos, 35 bisnetos e 10 trinetos. Mora atualmente em Crato, onde permanece desde que começou a trabalhar na RFFSA, ainda adolescente.

Estrada
Até chegar à função de maquinista, Cícero passou por maus bocados. Após o período como ajudante, exerceu o cargo de foguista, sendo o responsável por colocar a lenha que movimentava a popular “maria fumaça”. Com a chegada do trem elétrico, deixou o calor da caldeira e começou a ter as primeiras oportunidades manobrando o trem. Até que a RFFSA realizou uma seleção para conduzir suas locomotivas que faziam o trajeto entre Crato e Fortaleza. Entusiasmado com a oportunidade, se esforçou. “Se tinha que aprender as lições 1 e 2, ele já estudava a 3”, conta sua filha, a professora Fátima Carminha de Lima.  

Já no comando do famoso trem “Sonho Azul”, que operava como transporte de passageiros e cargas, numa viagem que durava cerca de 17 horas, Cícero conheceu sua atual esposa, Maria Carmina Lima, de 81 anos. “Ele ia passando e dava a mão para mim. Achava enxerido”, brinca. Como morava vizinha à irmã do maquinista, o conheceu e começaram a namorar. Com 60 anos de casado, se orgulha: “É um bom pai, bom marido e foi um bom filho. Não gosta de confusão e gosta de todo mundo”, define.  

Trem chamado de "Sonho Azul", que foi comandado por Cícero. Foto: Arquivo/Metrofor

Aos 100 anos, o aposentado sofre com problemas de audição. Fora isso, segue com boa saúde, segundo a família. Por escutar pouco, Cícero também é de poucas palavras. “Gostava de trabalhar. Era tranquilo”, lembra. Um detalhe ao longo de sua carreira é que a rotina o tornou um homem extremamente pontual. “Mas não dava trabalho. Sinto saudades”, reforça o ex-maquinista.

“É um orgulho imenso. Não só orgulho. É um exemplo para todos. A pessoa que tem prazer em viver. Tenho 49 anos. Nunca vi ele se reclamando de nada. Para ele, está sempre muito bem. Lógico, agora com problema de audição que dificulta às vezes, mas tem paciência. Gosta de conversar e contar as histórias dele”, ressalta a filha Fátima.

Guarda na memória que sempre acordava quando percebia que o pai havia chegado da última viagem. Na bagagem, trazia queijo de manteiga, que adorava. “Perguntava logo por mim e depois ia jantar”, narra.

Com a pandemia da Covid-19, infelizmente não foi possível realizar a festa que a família desejava. No entanto, ganhou um bolo e decoração com um tema que não poderia ser outro: o trem. Ainda de presente, recebeu a imunização contra o novo coronavírus, assim como a esposa. “Diante da pandemia, não podemos fazer uma coisa maior, porque merece. Mas pela saúde dele e de mãe, precisa de um cuidado especial. O mais importante é ele estar entre nós e saudável”, acredita a professora.  

História
Em 1882, era discutido no Parlamento brasileiro se a estrada de ferro continuaria de Baturité até o Crato ou se criaria de Aracati até Icó, depois ligar ao Sul do Estado. Muitos deputados se dividiram, mas a primeira opção venceu. Alguns parlamentares acreditavam que a vinda da ferrovia era uma forma de “amarrar” a região ao Ceará, já que o Cariri foi, até o final do século XVIII, parte do Pernambuco.

Trem usado para o transporte de passageiros e cargas nas estradas de ferro do Ceará Foto: Arquivo/Metrofor

A historiadora e professora da Universidade Regional do Cariri (Urca), Isabel Cortez, acredita que era uma motivação econômica fruto das disputas das províncias. Por exemplo, muito da produção local era transportada ao Rio Grande do Norte. “Não é simplesmente amarrar o Cariri, mas que essa produção fosse garantida para o Ceará”, coloca.

A estrada de ferro, trazida para o Cariri, também fazia parte de um projeto de integração nacional pelo Império, que tinha medo que as províncias se tornassem independentes. Na época, havia uma centralização maior do País e a ideia era levar a estrada de ferro até o Pernambuco e, de lá, integrar com as ferrovias da Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais.   

Mas nos discursos políticos, reforçados em jornais, a estrada de ferro aparece relacionada à questão econômica: ela tinha que ligar uma zona de produção agrícola a um porto. Então, começa um discurso do Ceará apresentado como um espaço de produção, chamando atenção para as “ilhas verdes” como Baturité e Cariri. No sul do Estado, evidenciada pela produção de cana-de-açúcar.  

Este discurso permanece até a seca de 1877, que acaba levando muitos retirantes para Fortaleza reclamar seus direitos e pedir ajuda à Província. Antes agrícola, agora a justificativa para estrada de ferro é filantrópica, servindo de socorro aos retirantes da seca. Depois, estes trabalhadores fizeram parte da frente de trabalho para a construção da própria ferrovia. 

Estação de Aurora inaugurada
 A Estação Ferroviária de Aurora foi inaugurada em 7 de setembro de 1920, quando as estradas de ferro já não tinham o mesmo investimento no Brasil. Apenas em 8 de novembro de 1926, seis anos depois, é inaugurada a estação de Crato e, no dia seguinte, a de Juazeiro do Norte. Enquanto isso, em todo o país, o Washington Luiz passa a aplicar recursos em estradas de rodagem.

“É muito famoso o trem da feira. Ele funciona muito trazendo toda essa produção para as feiras. A feira do Crato é mais famosa. Ela tomava muitas ruas da cidade. Ela não só leva muita coisa daqui. O algodão era maior que a cana-de-açúcar e a rapadura, mas essa produção de horticultura e diversas frutas vai ser muito incentivada pelo trem. Mas ela não sustenta o funcionamento", explica Isabel.

Curiosamente, a princípio, Juazeiro do Norte não teria estação. No planejamento de 1912, a cidade escolhida era Barbalha, que tinha forte produção de cana-de-açúcar. No entanto, Padre Cícero consegue, através do seu prestígio político, trazer o equipamento para seu Município. A terra de Santo Antônio fica de fora, mas em 1940 consegue um ramal. Mesmo assim, o transporte funciona por pouco tempo, pois, segundo os moradores barbalhenses, um acidente com o trem matou uma família inteira e traumatizou a cidade, finalizando o trajeto.

Com a ferrovia em declínio, o transporte de passageiros foi encerrado no final da década de 1980 e de cargas, até o final da década de 1990. Madeira, gasolina e carvão são trazidos para o Cariri, enquanto a região ainda distribui muita cerâmica e gesso, produzidos no Crato e nas cidades vizinhas Pernambuco, respectivamente. “O Crato não sofreu muito com o fim, porque vai ter uma ligação por várias rodovias que ainda garantem uma movimentação de pessoas e dessa economia”, aponta a historiadora.

Fonte: Diário do Nordeste

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