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| As inovações no uso do cambuí geram uma grande variedade. FOTO: Antonio Rodrigues |
Crato. No
quintal de Zé de Doda, o mato cresceu e formou um pé que passa despercebido na
Chapada do Araripe, pelo menos, até o mês de fevereiro. É durante a quadra
chuvosa - de fevereiro a maio - que o cambuizeiro, planta nativa, dá seus
frutos. O sabor doce e, ao mesmo tempo, travoso do cambuí começa a cair no
gosto do Cariri. Muito disso acontece pelas mãos de José Araújo Marôpo e Maria
Tereza Praxedes.
O
casal criou uma linha de produtos a partir da fruta que começou a gerar renda e
ampliar o alcance na região do Cariri. Tudo começou com o vinho, criado em
2006, a partir de uma experiência de Marôpo, que é agrônomo. Depois, veio a
cachaça. Mas Tereza resolveu aproveitar, além da polpa, a casca e as sementes.
Então, surgiram a geleia, doce, licor, vinagre, mousse, bolo, cocada e até
álcool produzidos do cambuí.
Marôpo
conheceu a fruta aos 7 anos, quando seu pai subia a Serra para caçar abelhas.
"Eu achava era bom que, enquanto ele estava ocupado, eu ficava chupando
cambuí", lembra. Muitos anos depois, ele volta a ter contato com o fruto
por meio de um projeto que pesquisa o valor econômico de algumas plantas na
Chapada do Araripe.
"Uma
senhora disse que fazia vinho, misturando no liquidificador e colocando
cachaça. Apesar de ficar gostoso, não era vinho porque não obedecia todo o
processo. Aí, pedi uma apostila de 16 páginas, explicando passo a passo a
criação da bebida. Aqui não tinha nem a levedura, tive que comprar meio quilo
do Rio Grande do Sul. Com 20Kg de cambuí, fiz os primeiros vinhos",
explica Marôpo. No ano seguinte, fez os primeiros 30 litros de vinho. Seus amigos
experimentaram e gostaram. Hoje, ele produz cerca de três mil litros ao ano.
"Tudo o que a gente tem sai do bolso da gente", conta. O próprio
agrônomo fez o equipamento para fermentação e destilação. "São duas
panelas de pressão de 10 litros, comprei conexões e canos de cobre, fiz a
serpentina e funcionou. Já tô fazendo outro", completa.
A
curiosidade de Marôpo fez com que ele realizasse experiências com outras frutas
nativas e comuns em feiras locais. "Sou curioso, gosto da pesquisa. Semana
passada, destilei cachaça de caju, pelo mesmo processo da cana. Saiu com quase
40% de volume álcool. Mas vou testar também no abacaxi. Gosto de testar essas
coisas. Isso tudo veio da minha cabeça", conta. Seu plano agora é criar a
cerveja de cambuí para o ano que vem.
Ampliação
Ao
ver Marôpo amassar o cambuí e tirar a polpa, Maria Tereza resolveu tentar fazer
alguma coisa com a casca, pois achava aquilo um desperdício. Começou separando
a fruta verde, que não se mistura com a roxa, madura, utilizada no vinho.
"Às vezes, ele jogava fora o cambuí verde. Resolvi guardar e deixar no
freezer. Com ele, vou fazendo a geleia, pois, quando cozinha, fica vermelho. Eu
misturo e não tem problema nenhum. No começo, sem saber, errei não sei quantas
vezes e me queimei", lembra.
Depois
da geleia, criada em 2014, veio o licor, também utilizando a casca. Em seguida,
foram surgindo outros produtos, como o bombom de chocolate, vinagre, mousse,
sorvete, picolé, suco e bolo. "Hoje, eu aproveito tudo. Até a semente dá
para fazer o óleo, mas a gente cria umas mudas. Ainda vou aprender a fazer a
bala. Mas dá também sequilho, biscoito. Tem dia que vou até 2 da manhã com esse
chiado das panelas", brinca.
O
dinheiro apurado é reinvestido, já que, hoje, tudo é feito de forma artesanal,
em casa. "Comecei com balde de 20l, depois 50l e 100l. Hoje tem barril de
200l. Tem outros dois barris de carvalho europeu para envelhecimento do
vinho", conta Marôpo. O sucesso maior vem da geleia, do vinho e da
cachaça. Mas o vinagre começa a ganhar espaço junto com o doce de leite com
geleia cambuí. Mas tudo ainda é comercializado sob encomenda, nas feiras
orgânicas ou na residência do casal.
Patente
O
vinho de cambuí e toda cadeia produtiva da fruta foram patenteadas pelo
agrônomo. O resultado foi deferido no dia 8 de setembro deste ano. Isso
assegura a Marôpo que outra pessoa não registre os produtos e o impeça de
trabalhar com eles. Além disso, ele firmou uma parceria com o Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Ceará (Sebrae-CE) para
conseguir o certificado de produto orgânico. "Eu sei que o vinho é
orgânico, mas o consumidor vai pedir uma prova, o selo", afirma.
Cambuí
Encontrado
em Nova Olinda, Barbalha e, principalmente, Crato, Santana do Cariri e Jardim,
o período de floração do cambuí começa em dezembro. No entanto, no Ceará,
também pode ser encontrado na Serra da Ibiapaba. Por ter um sistema radicular
muito profundo, a planta, que possui de 4 a 7 metros de altura, consegue chegar
até a água e ter maior vitalidade. Ele é muito consumido naturalmente na
Chapada do Araripe, já que é encontrado com muita facilidade. Alguns donos de
bares colocam a fruta na cachaça e triplicam seu valor, outros fazem suco e
picolé.
Por
outro lado, o cambuí se extinguiu em alguns municípios, como Porteiras e Missão
Velha. Segundo as pessoas mais velhas, havia muitos pés da fruta por lá, mas a
degradação por conta da produção de lenha e plantação de capim acabou com eles.
"Mas, hoje, não se fala em cortar um cambuí perto da serra porque o
pessoal não deixa. Ele criou valor econômico. Os próprios moradores abrem,
roçam, para ficar melhor de florar, frutificar e colher", garante Marôpo.
"Inclusive,
hoje já tem muita gente plantando e vendendo. Reproduzindo. Se tornou um
gerador de renda. Gente que traz na feira, coloca barraca no Centro ou perto do
canal. É vapt-vupt. Chegou, não demora. O pessoal gosta muito, até porque o
cambuí é hipoglicemiante e antidiabético", acrescenta o agrônomo, que
compra cambuí de extrativistas da Chapada do Araripe por R$ 1,70, o quilo.
É
o caso do agricultor José Antonio dos Santos, o Zito, morador da comunidade de
Cajueiro, em Santana do Cariri. Nascido e criado em cima de Serra do Araripe,
ele começou a chupar cambuí no mato e depois se acostumou a colher para a
venda. "A gente junta os baldes. Aqui, todo mundo colhe e leva para o
Crato", conta. A expectativa do agricultor é que, com o
"inverno", os pés de cambuí vão encher. Isso movimenta a comunidade,
que, mesmo sem vender, consome a fruta. "É um quebra-galho. Se levar para
o mercado, todo mundo vende. A gente vende em grosso. Leva 15, 20 baldes. Mas o
povo busca mais para chupar", acrescenta o agricultor.
Outras
frutas nativas da Chapada do Araripe começam a ganhar utilização local, como
murici, araçá, bacupari e mangaba, dos quais também são feitos geleias, doces e
balas. A mangaba é levada para Recife (PE), onde é consumida com frequência
como suco. No Cariri, já não tem a mesma popularidade.
"O
pessoal não tem essa ideia de processar. É muita acomodação. Algumas pessoas já
estão despertando e fazendo. Era para ser desenvolvido, na própria Chapada do
Araripe, um projeto para o pessoal fazer suco, geleia, picolé e movimentar a
economia local. Hoje, são considerados produtos geradores de renda e o pessoal
está começando a cuidar", acredita Marôpo.
Mais
informações:
Associação
dos Produtores Orgânicos do Cariri Cearense (Aprorce)
Telefones:
(88) 9 9803-4640 / 9 9205-8365 / 9 8867-8384
Blog: http://jamvc.Blogspot.Com.Br
R.
Mons. Fco de Assis Feitosa, 295 (Diário do Nordeste)


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