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| O Santuário de São Francisco foi inspirado nos edifícios lombardos do século VII e todas suas imagens vieram da Itália. FOTO: Antonio Rodrigues |
Construída
no meio do mato, próxima à estação ferroviária, o local foi uma roça de
mandioca e um pequeno campo de futebol. O terreno, que pertenceu ao Padre
Cícero, foi doado à Diocese de Crato, que repassou aos capuchinhos. Segundo
frei Raimundo Barbosa, atual pároco da Igreja, a vinda dos frades, em 1949, e a
construção do Santuário foi uma forma de a Igreja combater o milagre de
Juazeiro.
"Dom
Francisco de Assis Pires teve a ideia de chamar os capuchinhos para se instalar
em Juazeiro do Norte a fim de criar a devoção por São Francisco e, de certa
forma, abafar a atuação do Padre Cícero. Hoje, a realidade mostra que eles
implantaram, mas Padre Cícero continuou amado e querido pelos romeiros",
conta o frade.
No
dia da inauguração da pedra fundamental, em 6 de janeiro de 1950, o vigário da
Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores, o Monsenhor Juviniano Barreto, foi
assassinado a facadas durante o evento.
Apesar
da fatalidade, a obra seguiu até ser concluída e celebrada exatos seis anos
depois. "Chamaram os capuchinhos de loucos porque iam construir um
monumento desses no meio do mato", acredita frei Barbosa.
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| O teto possui nomes de pessoas e famílias que colaboraram na construção do templo gravados dentro de estrelas; a homenagem cobre toda parte do forro. FOTO: Antonio Rodrigues |
De
acordo com os dados dos próprios frades, para a construção da Igreja dos
Franciscanos, foram necessárias 560 mil horas de trabalho, 4.591 sacas de
cimento, cerca de 49 mil quilos de ferro, 4.500 metros quadrados de vidro e,
aproximadamente, 3 milhões de tijolos. Todo esse material e suor deu origem ao
complexo que, hoje, possui a Igreja, o pátio, convento, abrigo, seminário e a
Escola São Francisco.
Toda
construção foi planejada pelo Frei Francisco de Milão, o "frade
engenheiro", como diziam, que trabalhou, incansavelmente, para sua
conclusão. Os mais antigos contam que ele trabalhava durante o dia e São
Francisco de Assis noite adentro. O frade italiano foi responsável também pelas
edificações da Catedral do Nosso Senhor do Bonfim, em Grajaú, da Igreja Matriz
de Imperatriz e da Igreja-monumento aos mártires do Alto Alegre, em Barra da
Corda, todas no Maranhão. Além disso, planejou obras para conventos e escolas.
Edifícios
lombardos
O
Santuário de São Francisco foi inspirado nos edifícios lombardos do século VII
e todas suas imagens vieram da Itália. A principal, do santo que fica no centro
da Praça das Almas, veio de Milão. Ela é toda feita de bronze, pesa uma
tonelada e tem quatro metros de altura.
Segundo
frei Barbosa, a matéria-prima foi conquistada através de campanha na cidade
italiana para que os donos de túmulos doassem objetos com a liga metálica.
Praça
das Almas
"Crucifixo,
jarras, letras. Recolheram tudo, derreteram e fundiram. Um homem fez a forma e
dela só duas imagens, antes de quebrar. Só tem essa imagem aqui e em Milão. Por
isso, se chama Praça das Almas, porque foi criada com material dos
túmulos", explica o Frade. A própria Praça das Almas é inspirada na Praça
de São Pedro, do Vaticano, com 224 colunas que suspendem o "passeio das
almas", que circula a Igreja.
De
acordo com a professora Adriana Botelho, a existência dos pátios que ladeiam as
igrejas no Brasil remontam ao urbanismo do período colonial. Frequentemente, a
construção de edifícios religiosos era acompanhada pela criação de um adro ou
praça, mas seguiam um formato mais retangular.
No
caso do Santuário de São Francisco, se assemelha à Basílica de Nossa Senhora
das Dores, também na cidade de Juazeiro do Norte.
"É
com o projeto da Basílica de São Pedro e, posteriormente, com a concepção
barroca do pátio com forma elíptica circundado por colunatas construído entre
1656 e 1667 pelo artista e arquiteto Lorenzo Bernini que encontramos o modelo
que influenciará os edifícios católicos posteriores. Principalmente àqueles que
são locais de peregrinação cristã, recebendo grande número de visitantes",
explica Adriana.
A
torre do relógio possui 50 metros de altura. Também pode ser vista a imagem dos
quatro santos responsáveis por evangelhos do Novo Testamento: João, Marcos,
Mateus e Lucas. Além disso, diversos símbolos atraem olhares curiosos, como a
Cruz Pátea e o Brasão do Papado. Segundo o frei Barbosa, o uso das figuras é
comum, pois durante os seminários, o livro "História Sagrada",
possuía muitos símbolos que narravam as histórias.
"É
uma catequese pelas figuras. Nela tem o olho de Deus, que vê tudo. Muita gente
que chega, vê e pensa que tem relação com a maçonaria. Mas ela está na história
da Igreja. Ele é o que chama mais atenção. Assim como a cruz malta que pensam
que tem a ver com Vasco", brinca o frade.
Mas
o que mais chama atenção é o teto, que possui nomes de pessoas e famílias que
colaboraram na sua construção gravados dentro de estrelas. A homenagem cobre
toda parte do forro. Era comum ter visível o registro dos doadores que
contribuíam para a construção das igrejas em imagens ao lado dos santos nas
pinturas e esculturas medievais e renascentistas europeias. "Eu,
pessoalmente, não conheço outro exemplo com esse formato preenchendo todo o
teto com o nome dos doadores como o observado na Igreja dos Franciscanos",
garante Adriana Botelho.
"Feita
por muitas mãos", como afirma frei Barbosa, os capuchinhos vendiam espaços
na Igreja para a população. "Há, assim, um santo leilão de colunas,
portas, janelas, vitrais, mosaicos, estrelas e rosas para forros,
altares", descrevia Frei Carlos do Arary, em 1953. Quatro colunas custaram
10 mil cruzeiros ao ex-governador Raul Barbosa.
Uma
coluna menor, de um total de 28, custava cerca de 4 mil cruzeiros. Cinco
janelas com vitrais custavam 20 mil e assim por diante. Os mais pobres traziam
madeira, tijolos, pedras ou compravam coletivamente, como tem gravada em
"tabuinha": "Os pobres da Palmeirinha". Tudo isso para
ficar eternizado na Igreja. Na parte externa, no "passeio das almas",
só tem nome de pessoas que já faleceram pintadas nos brasões.
Adriana
Botelho designa o Santuário como "estilo eclético", pois está marcado
por distintas características. "Essas imbricações do geral com
manifestações locais podem gerar uma linguagem arquitetônica e estilística mais
rica e autônoma. Temos um templo católico único e especial", exalta a
professora.
Com
todas suas peculiaridades, o Santuário de São Francisco ainda atrai muitos
visitantes, como o comerciante Expedito Francisco da Silva, que veio de São
Paulo, conheceu a Igreja e fotografou. "Muito bonita, organizada. Gostei
muito da frente da igreja e do altar. Como minha mãe estava doente, vim com
meus irmãos conhecer e agradecer", garante.
Tradição
Hoje,
o Santuário de São Francisco é um dos principais pontos de peregrinação durante
as romarias de Juazeiro do Norte, principalmente, na Romaria de Finados, em
novembro. Os romeiros costumam, assim que chegam no Município, circular três
vezes de dentro do ônibus a imagem de São Francisco, na Praça das Almas.
Na
gruta, que fica detrás da Igreja, os fiéis levam sua água considerada sagrada.
O passeio das almas é outro ponto de referência, uma caminhada de cerca de 300
metros. Nas noites de quarta-feira, a "Hora da Graça" reúne centenas
de pessoas para uma tradicional missa criada por frei Damião. (Diário do Nordeste)



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