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| FOTOS: Acervo - Titus Riedl |
Em entrevista concedida ao jornal baiano A Tarde, o historiador Titus
Riedl conta que em 1994 veio morar no Brasil, mais especificamente no Crato, e
resolveu estudar estas imagens, para aprofundar os estudos imagéticos destas
representações fotográficas itinerantes.
A primeira coisa que o impressionou foi que os
mortos pudessem ressuscitar. Estavam ali no caixão, rodeados por flores, e de
repente apareciam em fotografias pintadas com os olhos abertos, para serem
pendurados vivos.
Lembra
do caso de uma viúva que recebeu a visita de um desses artistas. A mulher lhe
conta que não tem foto junto com o marido, e ele pergunta se não há um 3×4 da
identidade que seja, ou da carteira de trabalho. E aí, de repente, está à
senhora de 80 anos ao lado de um homem com 19. “Quando você vê a fotopintura,
tem 60 anos às vezes no meio deles. Você acha que é o neto. Mas não, era o
marido”.
Pressentindo
que essas imagens desapareceriam com o tempo, Titus decidiu, mais que
pesquisá-las, guardá-las. Essas de mortos-vivos, mas também dos vivos-vivos. É
hoje o maior colecionador de fotopinturas no Brasil. Tem “na faixa” de cinco
mil delas. Uma pequena parte do acervo foi exposta no final de semana passado
em Salvador. Um monte de rostos anônimos, mas tão familiares, mirava quem subia
ou descia os degraus da escadaria da Igreja do Passo.
Quem é que nunca viu, numa casinha pelo interior, uma foto
dessas penduradas na parede? Meus avós têm umas, os seus também devem ter.
Artefato de nobreza
Processo
inventado pelo francês André Adolphe Eugène Disdéri, em torno do ano 1863, a
fotopintura é obtida a partir de uma base fotográfica sobre a qual o artista
aplica as tintas de sua preferência sobre a tela. Em relato sobre a utilidade
destes objetos como fator de status social, o professor Titus exclama sobre o
fato de este ser o momento onde a pobreza tornava-se “nobre”.
“Antigamente, era praticamente a única referência visual que
existia dentro das casas. As imagens transmitiam uma autoridade, mostrava quem
eram os donos. Hoje as pessoas fazem fotos com chifre, sorriem, tem sempre uma
gaiatice, e ali não. Era sério, sereno. Envolvia um ritual de mudar de roupa,
pagar pela foto. Tinha de dar certo”.
Às vezes, acontece de algum retratado querer dar as
fotopinturas para Titus, sabendo que ele é tão interessado nelas, mas ele não
aceita. Construiu sua coleção nas visitas que fazia aos locais onde os artistas
trabalhavam, com cópias rejeitadas pelos clientes. “Eram telas com algum
defeito, fungo, mancha, ou as pessoas queriam alterar a imagem. Tirar uma
figura, botar outra… Comecei a comprar nas oficinas o que eles iam jogar fora.
Outras estavam abandonadas há anos pelos vendedores”.
Hoje, as fotopinturas estão praticamente
extintas, diz Titus. Em meados da década de 1990, quando ele passou a reunir os
retratos, os pintores já tinham dificuldades de conseguir papel fotográfico e
materiais de pintura.
Nos
anos 2000, passaram a trabalhar no computador. Titus não gosta muito dessas
digitalizadas. Primeiro, porque não duram – no máximo dois, três anos – e,
depois, porque perdem o cuidado do fazer manual e uma certa “ingenuidade”. “Ainda
dá para fazer fotopintura, mas já pagando muito”.
Os
fotógrafos-pintores viajavam o Nordeste produzindo imagens, por isso a coleção
de Titus tem obras de vários estados, inclusive da Bahia. Também há retratos
pintados similares aos feitos aqui em outras regiões do país e no exterior, em
países como Argentina, Uruguai, México. Mais para o sul, elas vão ficando mais
elaboradas, conta Titus, mas por isso mesmo “menos legais”, na visão do
pesquisador. (Com colaboração de texto da
jornalista Tatiana Mendonça e Badalo)




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