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| A parede de pedra possui ícone muito fortes, semelhante a tuiuiús. FOTO: Antonio Rodrigues |
Crato. O povoamento
do Cariri envolve resistência, lutas, suor, mortes e muitas lendas. Uma delas é
que a Chapada do Araripe é um mar subterrâneo represado pela Pedra da
Batateira, que seria a cama da Mãe D'água. Pelo imaginário popular, se um dia a
pedra rolar, todo vale seria inundado. Também conta-se que uma cobra gigante
era vista com frequência na "Lagoa Encantada". Resquícios dessas
histórias e da chegada do homem na região podem estar presentes no sítio
arqueológico de Santa Fé que, em breve, será aberto para visitação, quando se
tornar um geossítio do GeoPark Araripe.
No
último mês, a diretoria do GeoPark Araripe se reuniu com representantes da
Fundação Casa Grande para discutir o gerenciamento da proposta do Geossítio de
Santa Fé, que fica a cerca de 20 quilômetros da sede do município do Crato e
está a 800 metros de altitude. Seu principal atrativo são as inscrições
rupestres deixadas pelos antigos habitantes que viveram na Região do Cariri
cearense, ao sul do Estado do Ceará. A área, de 8,3 hectares, possivelmente,
fará parte do território da Organização das Nações Unidas para Educação Ciência
e Cultura (Unesco).
Os
estudos arqueológicos estão sendo feitos pela Fundação Casa Grande, que há três
décadas pesquisa no local. Já o mapeamento geológico ficará por conta da equipe
de Geoconservação do GeoPark Araripe. A expectativa é que todo levantamento
seja concluído até junho para ser apresentado no dia 10 de setembro deste ano,
na Conferência Global de Geoparques, na Itália, junto com a candidatura de mais
dois geossítios: Levadas de Água e Caldeirão da Santa Cruz. Todos no município
de Crato.
O
objetivo é que, a partir da inclusão, possam atrair turistas, curiosos e
estudiosos. Hoje, o processo mais avançado é o Sítio de Santa Fé, no distrito
homônimo. O levantamento topográfico está sendo feito para definir a área, os
locais de trilhas, ponto de destaque, além do inventário geológico. O terreno é
privado, mas seu proprietário é parceiro da Fundação Casa Grande e do GeoPark
Araripe. "Com as devidas justificativas, informações sobre entorno, de
acesso ao local, fica pronto para fazer o encaminhamento para o parecer",
explica o diretor executivo do GeoPark Araripe, Nivaldo Soares.
Depois
de aprovado, a expectativa é que comece a fazer os investimentos para melhorar
o acesso, sinalização e divulgação de Santa Fé. Uma equipe deve buscar
consultoria junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(Iphan) para estruturar o geossítio para visitação. Algumas atividades com as
comunidades do entorno devem ser realizadas para instruir os moradores a fazer
uso do espaço com geração de emprego e renda a partir da recepção de visitantes
e artesanato. Outras possibilidades podem ser o turismo sustentável e rapel.
"O
processo é lento, mas vamos insistindo. A gente tinha uma programação de todo
levantamento terminar em abril, mas, por conta das chuvas e da vegetação que
tomou conta da área, não deu. Mas a gente está interessado em fazer o mais
rápido possível. Depende muito dos parceiros. Quando os estudos estiverem
concluídos, serão expostas as análises e resultados que compõe: história,
cultural, geologia e comunidades do entorno", acrescenta Nivaldo.
Apesar
do grande valor arqueológico, já que é um dos principais sítios do Cariri, o
Geopark incluirá Santa Fé também pela sua formação geológica, que apresenta
pacotes de arenitos. "Tem aspectos visuais interessantes. Até panorâmico,
pode ser considerado relevante. Lá é área de encosta que apresenta desenhos que
podem ser considerados como bordados. A formação Exu, em si, favorece essas questões",
descreve Nivaldo.
Arqueologia
O
casal Alemberg Quindins e Rosiane Limaverde, criadores da Fundação Casa Grande,
conheceram o sítio arqueológico na década de 1980, sob propriedade de Eurivan
Teles. Logo, a arqueóloga se interessou pelas gravuras, que possuem
características singulares de quaisquer outras da região. O que chamou atenção
é que na rocha há uma incisão e, posteriormente, se aplicou uma tinta.
Acredita-se que estes registros têm mais de 3.100 anos.
"Pela
técnica, altitude e tipo de gravismo, Santa Fé é um sítio que se mostra muito
mais antigo, eles avançaram lá primeiro. Pelo mapa, é o local mais avançado
para o vale do Cariri. A gente acredita que o Santa Fé é mais antigo",
pontua a arqueóloga Heloísa Bitú, que também pesquisa sobre o local.
A
arqueóloga Rosiane Limaverde, que faleceu em março de 2017, aos 51 anos, se
dedicou a estudar as rotas migratórias deste "Homem Kariri", onde foi
a sua penetração na região e seu modo de vida. Ela acreditava que aquele local
foi utilizado para uma série de funções ritualísticas e isso não foi encontrado
em nenhum outro sítio. Santa Fé se tornou um ponto de referência para entender
a ocupação humana no Cariri.
A
parede de pedra possui um ícone muito forte, que se repete, e Rosiane associava
com a possibilidade de ser uma ave. Ele foi escolhido como símbolo do Memorial
Homem Kariri. Pelo tipo de ave, que parece um tuiuiú, dá pra imaginar que o
Cariri era uma terra com água em maior abundância, já que esta espécie vive em
locais mais úmidos, como o Pantanal.
Mas
o que mais chamou atenção foi a presença de uma linha sinuosa que as pessoas
associam a uma serpente. É ela que pode estar ligada ao mito dos índios da
"Mãe D'água", que vive na lagoa encantada em cima da Chapada do
Araripe. Santa Fé é o único sítio arqueológico que possui essa representação.
"São alguns fragmentos que ainda continuam nas comunidades e podem fazer
relação com essa ocupação", pontua Heloísa.
Heloísa
Bitú identificou outra serpente após análise no computador. O contraste da
imagem reforçava a figura. "Essa pode afirmar que se tratava de uma
serpente porque tinha a cabeça definida e uma boca semiaberta. Nada é por
acaso", garante a arqueóloga.
Preservação
Em
1991, o bancário Sérgio Limaverde adquiriu a área que compreende o Sítio Arqueológico
de Santa Fé. No entanto, ele não conhecia nada das gravuras até Alemberg e
Rosiane visitarem o local para os estudos. Hoje, aposentado, Sérgio lembra que
foi graças ao casal que ele manteve a conservação. "Nunca desmatei porque
pediram para não tirar a originalidade que era a mata e ter cuidado com
invasão", lembra.
Como
ainda não morava no Crato, ele chegava a flagrar dois a três carros subindo e
invadindo o local sem permissão. Foi aí que tomou a atitude de colocar um
portão e cadeado na entrada da estrada. "Eu dizia que ali só mexiam se
fosse com o Alemberg e Rosiane. Antes, eu não tinha conhecimento, mas após
saber do valor, ajudei a mantê-lo", destaca.
Hoje,
a principal ameaça do para Santa Fé é o tempo. Ele sofre processos naturais das
rochas e está ameaçado de desaparecimento. Segundo Heloísa Bitú, a ocupação do
painel é antiga e foi utilizada por muito tempo. Boa parte já se destacou da
rocha e teve uma perda de quase 40%. "Todo o processo não acontece da
noite para o dia. É um processo natural que leva bastante tempo para acontecer.
A gente consegue perceber que tem gravuras incompletas. O painel era muito
maior e tinha muitas gravuras", conta a arqueóloga.
A
deterioração está ligada à umidade presente na formação geológica do sítio. A
água absorvida das chuvas penetra nas rochas e o sítio fica entre essa parte de
absorção e acúmulo de água da Chapada do Araripe. Isso causa um processo de
oxidação e degradação da rocha. "Não podemos intervir de forma mais
incisiva. A gente tem uma série de leis que protegem o patrimônio que resgatam
a originalidade. Como é um processo natural, a gente pode intervir para
desacelerar o processo. Fazer com que leve mais tempo", completa.
Com
a criação do geossítio, o GeoPark Araripe planeja atuar na diminuição de
umidade e fazer escoamento da água para que não caia diretamente nas gravuras.
Além disso, será feito um projeto, junto com a Fundação Casa Grande, para gerir
o espaço. "A partir de uma análise ecológica, identificamos outros
problemas que são as raízes, degradação da área verde, água escorrendo que
deteriora a área pintada, os cupins, roedores e insetos. Tudo isso foi
analisado, diagnosticado", conclui Heloísa.
Para
o diretor da Fundação Casa Grande, Alemberg Quindins, com a criação do
geossítio Santa Fé haverá mais condição técnica de preservação à sua disposição
como um patrimônio natural, material e imaterial. "O intuito desta
mobilização e parceria entre empresas privadas, instituições acadêmicas,
instituições de pesquisas e organizações não governamentais, é inédito e
exemplar no Cariri e no Estado", exalta.
Fique
por dentro
Conheça
os já existentes
Nove
geossítios compõem o GeoPark Araripe, em seis municípios do Cariri cearense:
Colina do Horto, em Juazeiro do Norte; Cachoeira de Missão Velha e Floresta
Petrificada, em Missão Velha; Batateira, em Crato; Riacho do Meio, em Barbalha;
Ponte de Pedra, em Nova Olinda; e Pedra Cariri, Parque dos Pterossauros e
Pontal de Santa Cruz, em Santana do Cariri.
Enquete
Você
acha que Santa Fé atrairá mais visitantes?
"Com
certeza vai vir mais gente, o pessoal quer conhecer, ter mais pertencimento.
Pena que não foram feitos os estudos antes. Mas agora terá uma preservação
melhor"
Sérgio
Limaverde. Aposentado
"Na
própria comunidade, pouca gente conhece. É mais o pessoal de fora. Como lá é só
mato, fica encoberto. Mas é bonito, sossegado. Vai vir gente de todo
canto"
Francisco
da Silva Pereira. Agricultor
(Diário do Nordeste)


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