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Escultura do Padre Ibiapina em frente à Casa de Caridade
de Crato.
FOTO: Antonio Rodrigues
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Há dois séculos, o
jovem sobralense José Antônio Pereira, que depois adotaria os sobrenomes
“Maria Ibiapina”, pisava no Crato pela primeira vez, aos 13 anos, quando seu
pai, Francisco Miguel Pereira, foi nomeado tabelião vitalício da Comarca local,
em 1819. Temendo pelas agitações da Revolução Pernambucana, sua família enviou
o garoto, no ano seguinte, para o atual município de Jardim, onde estudou
latim. Em 1823, o adolescente deixou o sul do Ceará e ruma ao Seminário de
Olinda, em Pernambuco.
O Padre Ibiapina só
retornaria ao Cariri em 14 outubro de 1864, na então vila de Missão Velha, há exatos 155 anos. Esta passagem se estendeu até o dia 2 de
fevereiro de 1865, quando inaugurou a Casa de Caridade, um equipamento voltado
para o acolhimento de órfãos, principalmente mulheres. Foi a primeira das
quatro que deixou na região. Ao todo, ergueu 22 casas, espalhadas por Ceará,
Paraíba, Pernambuco e Rio grande do Norte. Além disso, o “Peregrino da
Caridade” foi responsável por orientar a construção de cemitérios, igrejas,
barragens e açudes.
Com o lema “Ora e labora”, isto é,
“Ora e trabalha”, ali, as meninas receberiam uma educação religiosa e seriam
preparadas para serem boas esposas e mães de família. A acolhida era feita
pelas “beatas do Padre Ibiapina”, como eram conhecidas, que ensinavam
as moças a costurar, cozinhar, cuidar da casa e aprender as primeiras letras.
“Para a época, isso era avançado pro sistema patriarcal”, conta o pesquisador e
advogado Heitor Feitosa, presidente do Instituto Cultural do Cariri (ICC).
Infelizmente, no final da década de
1960, o prédio de Missão Velha foi demolido para dar lugar a Casa Paroquial e o
Centro Pastoral. “Aqui, ele deixou o legado da atual Igreja no distrito de
Jamacaru e um açude público, no sítio Gameleira de cima”, conta o
pesquisador missão-velhense, Bosco
André. Nesta primeira passagem, Ibiapina ainda visitou a vila de
Barbalha e o povoado de Conceição do Cariri, atual município de Porteiras.
O professor e
escritor Eduardo Diatahy Bezerra
de Menezes conta, no seu artigo “Pe. Ibiapina: figura matriarcal
do Catolicismo sertanejo no Nordeste do século XIX”, que as construções
eram feitas em tão pouco tempo “em virtude da multidão de pessoas e recursos
que suas palavras mobilizavam”. O açude no atual Sítio Gameleira, por exemplo,
foi feito em uma semana. Em 19 dias, um mutirão reformou a capela para Nossa
Senhora das Dores, na vila de Goianinha, atual distrito de Jamacaru,
que hoje é elevada à categoria de “Paróquia”.
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Capela na Casa de Caridade do Crato, única que se mantém
de pé no Cariri. FOTO: Antonio Rodrigues
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Do seu legado, o mais marcante é a
Casa de Caridade de Crato, inaugurada em 1869, que é única que se mantém de pé
no Cariri, já que além de Missão Velha, os prédios em Barbalha e Milagres
também foram demolidos. Com 150 anos completados no último dia 7 de março, até
pouco tempo o prédio continuava cumprindo seu principal papel: o
acolhimento de mulheres pobres, a maioria órfãs.
Se antes a edificação era imponente
em um vasto terreno sem muitas ocupações ao redor, hoje, a edificação se
esconde atrás de outras, como da Rádio Educadora. Isso acontece porque, a
partir da Casa de Caridade de Crato surgiu a Fundação Padre Ibiapina, em
1956, que deu origem à emissora e também ao Cine Teatro e ao Colégio Pequeno
Príncipe, inaugurado em 25 de março de 1969. “Aqui
só tinha menina pobre. Quando cheguei, ainda havia mais de 40 meninas”,
descreve a madre Maria Carmelina Feitosa, que chegou ao Crato em 1938, aos
16 anos, para estudar no Colégio Santa Teresa de Jesus, vizinho à
instituição.
As salas do Colégio Pequeno Príncipe
foram criadas ainda no prédio da Casa de Caridade, que sofreu poucas
alterações. A capela, por exemplo, só teve seu piso reformado, mas ainda
preserva parte do chão original. Até a década de 1960, o local era mantido com
apoio Cúria Diocesana e o trabalho das próprias irmãs que promoviam cursos
particulares como de culinária, por exemplo, para manter o lar de
acolhimento. Hoje, a mensalidade do colégio mantém
boa parte da estrutura.
O professor de História da
Universidade Regional do Cariri (URCA), Océlio Teixeira, acredita que
há um descaso, principalmente da Igreja Católica, com legado deixado pelo
Padre Ibiapina. “Do ponto de vista pastoral, (seu trabalho) foi mais
interessante que do Padre Cícero. Enquanto este se fixou em Juazeiro e teve seu
trabalho voltado para conselhos, orientações,
Padre Ibiapina peregrinou pelo Nordeste e, em cada local, em cada
cidade, além do trabalho pastoral, fez um trabalho social importante. Eu
diria que ele fez, naquele período, o que o Governo não fazia.”,
acredita.
Influência
Lá atrás, durante a inauguração da
Casa de Caridade de Missão Velha, um jovem, com 20 anos, corpo franzino,
acompanhava o sermão de Padre Ibiapina. Este garoto era nada mais nada
menos que Cícero Romão Batista. No ano seguinte, ele se matricularia no
seminário e se tornaria a figura tão popular do Padre Cícero que conhecemos
hoje. Alguns pesquisadores acreditam que a pregação, a comunicação e o serviço
ao povo pobre de Ibiapina influenciaram o fundador de Juazeiro do Norte a se
tornar um dos líderes religiosos mais importantes do país.
“De fato, todos os pesquisadores da
vida dos dois apontam que Padre Cícero, ainda jovem, teria escutado algumas
pregações do Padre Ibiapina quando ele começa a andar aqui.
Inclusive, o próprio trabalho com beatas e beatos tem muita influência, porque
foi ele que inseriu esse trabalho aqui no Cariri. Essa influência é verídica. É
correta”, sentencia Océlio.
Beatificação
A Diocese de Guarabira (PB)
conduz o processo de beatificação do Padre Ibiapina, já que
ele morreu no município de Solânea, no agreste paraibano. No documento
“Nihil Obstat”, da Santa Fé, emitido em 18 de fevereiro de 1992, ele já
foi reconhecido como “Servo de Deus”, pelo Vaticano. A fase diocesana da Causa
já foi concluída. Durante 10 dias, representantes da Igreja ouviram
testemunhas e coletaram documentos que foram anexados ao seu processo
que se encontra em análise.
Cronologia do trabalho de
Padre Ibiapina no Cariri:
Missão Velha – missões – 14/10 a
24/10/1864 – Casa de Caridade – 02/02/1865
Barbalha – 14/11/1864 –
cruzeiro, cemitério dos coléricos, matriz – Casa de Caridade: 1869
Conceição do Cariri
(Porteiras) – vigílias de Penitência; restauração da capela
Jardim – tríduo preparatório e
solenidade de Santo Antonio – 07 a 20/06/1868; bênção da nova matriz;
cemitério com capela e jardim
Goianinha, Porteiras, Brejo, São
Pedro, Milagres, Missão Velha – missões – 17/08 a 31/10/1868
Crato – 21/06 a 13/07/1868 –
pregou missões, construiu cemitério, açude com estrada de acesso
Barbalha – missões – 29/07/1868
até 13/08/1868 – matriz
Goianinha (JAMACARU) –
reforma e ampliação da capela de N. Sra. das Dores – 17/08/1868 a 31/08/1868; e
açude
Porteiras – capela e açude – 11
a 29/09/1868
Brejo Santo – capela do Sagrado
Coração de Jesus – (primeira semana – 10/1868)
Vila de São Pedro (Abaiara) –
ficou até 25/10/1868 – missões; cemitério; açude; estrada
Crato – 01/11/1868 até
02/01/1869
– dia 1º/11/1868 inauguração
do Instituto do Coração de Maria (Colégio Cratense)
– jornal semanal “A Voz da
Religião no Cariri” – 08/12/1868 até 27/11/1870;
– curso de instrução
religiosa para adultos – 15/11
– inauguração da Casa de
Caridade – 07/03/1869
Caldas – Capela Bom Jesus –
16/03/1869
– Cruzeiro do Caldas e missa na
solenidade do Domingo de Ramos – 21/03/1869
Milagres – açude – outubro/1868
Barbalha – bênção da Casa de
Caridade – 25/03/1869
– instalação da Casa de
Caridade – 28/03/1869
Milagres – abril, maio,
junho/1869 e permaneceu até 05/07/1869; voltou entre 10 e 17/04/1870 em
missões; Casa de Caridade: 29/06/1869
Abaiara – capela de São Pedro:
11 ou 12/07/1869
Fonte:
Padre Francisco Roserlândio de Souza, diretor do Departamento
Histórico Diocesano Pe. Gomes – Blog Diário Cariri – Diário do Nordeste



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